Sérgio olhou para Júlia, com um olhar profundo e obscuro.
Júlia ergueu os cantos dos lábios em um sorriso.
— Que tal fazermos assim? Você pode dizer ao público que foi você quem pediu o divórcio primeiro e que eu aceitei, só te peço que pare de me perturbar.
Ela encostou-se no corredor onde tantas vezes observara Sérgio no passado.
Conhecia até o ângulo exato em que a luz do sol projetava as sombras em cada momento do dia.
O balde no canto da escada abrigava as memórias de quando fora empurrada por Sérgio e caíra.
— Desse jeito, você parece mesmo um cachorro.
— Um cachorro que não aceitava ser domesticado, que saía correndo atrás de qualquer osso que os outros jogassem, e que depois descobriu que a carne de casa era a mais saborosa.
Um brilho gélido irrompeu nos olhos de Sérgio.
Ele trincou os dentes, parecendo prestes a morder alguém.
A voz soou pausada, palavra por palavra.
— Não passe dos limites.
Júlia deu de ombros.
No andar de baixo, a comida estava pronta.
O grito de Dona Eunice soou como as badaladas do relógio à meia-noite.
Sérgio de repente se lembrou da sua atual situação.
Ele nem sequer tinha o direito de ficar com raiva.
Entre ele e Júlia só existia uma certidão de divórcio e uma filha que se recusava terminantemente a reconhecê-lo.
Sérgio conteve a fúria à força.
Pausou por um momento, engolindo o orgulho antes de dizer:
— Deixe a Dora dormir mais um pouco, mesmo que... passem a noite, não tem problema.
— Não precisa, a Dora não dorme bem em ambientes desconhecidos.
A voz de Júlia estava muito fria quando ela disse isso.
Porque ela se lembrou.

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