O condomínio de luxo em que Júlia morava ficava perto da creche de Dora, mas a mais de quarenta minutos de carro da Oceano.
Sérgio havia feito de tudo através de um corretor e, com muito esforço, finalmente conseguiu comprar o apartamento abaixo do dela.
Em toda a sua vida, ele nunca tinha feito algo tão indigno.
Mas quando se viu diante da janela do chão ao teto de sua nova casa e observou Júlia aparecer segurando a mão da filha, sentiu que tudo valia a pena.
Hoje era o dia de Sérgio levar Bernardo à Escola Infantil Harmonia para se desculpar.
Embora Bernardo já tivesse contratado professores particulares e estivesse estudando em casa, a promessa de se desculpar com todas as crianças ainda não havia sido cumprida.
Sempre que Sérgio pensava naquela criança, sentia uma dor de cabeça enorme.
Comparando, ele percebia o quão obediente e comportada Dora era.
Se Bernardo tivesse sido criado e educado por uma mãe como Júlia, com certeza não seria do jeito que era agora.
— Papai, eu não quero ir para a creche.
— Foi você quem disse que eu não precisaria ir nunca mais.
Para resolver essa questão, Sérgio até mesmo almoçou na empresa naquele dia.
— Se você sabe que é vergonhoso, então não deveria ter intimidado os seus colegas.
— Vamos logo. O que foi prometido deve ser cumprido.
Bernardo estava com uma cara de relutância, mas não se atreveu a desobedecer e saiu de casa a contragosto.
Primeiro, admitiu o erro no sistema de som da creche.
Depois, guiado por Sérgio, foi a todas as salas com as quais havia se desentendido para se desculpar.
Naturalmente, a sala de Dora era a que tinha mais alunos.
Assim que Sérgio entrou na sala, viu Dora sentada em seu banquinho.
Hoje ela usava um vestidinho verde com estampa floral.
Os elásticos nas tranças também combinavam.
Roupas e sapatos baratos vestidos de forma linda, confortável e modesta.
O coração de Sérgio se derreteu.
Ele teve vontade de pegar a criança no colo ali mesmo.
Bernardo soltou um "desculpe" com atitude desdenhosa.
Dora disse:
— Tio, a minha mamãe me disse que, ao se desculpar por um erro, a gente deve ser sincero e fazer uma reverência.
— Des... culpe.
Dora brincava com os blocos de montar.
— Mas você ainda não disse o que fez de errado. Se você não souber o que errou, não vai parar de fazer de novo.
Bernardo estava com tanta raiva que queria pular nos braços da mãe e pedir para ela bater naquela garota chata até morrer.
Mas a sua mãe não estava ali.
O seu pai também não ligava para ele.
— Buáá, eu não devia ter pegado os brinquedos da Dora, não devia ter puxado o cabelo da Nanda. Papai, eles tão me humilhando, buáá.
Após terminar de se desculpar, Bernardo agachou-se no canto enxugando as lágrimas.
As professoras da creche, afinal, o conheciam de dias anteriores e agacharam-se para confortá-lo com algumas palavras.
Aproveitando a brecha, Sérgio perguntou:
— Dora, o papai... Eu posso falar com você rapidinho?
Dora não queria admitir em voz alta.
Mas no fundo, ela sabia que ele era o homem que a sua mãe havia amado no passado, e por isso ela o chamava de pai.

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