Dora sentia curiosidade em relação a esse Tio Papai, tinha um pouco de timidez, mas também uma afinidade natural e uma expectativa que não sabia explicar.
— O que você quer falar?
Com as mãos nos bolsos, Sérgio esfregou a unha do dedo indicador com o polegar.
Após um instante, tirou uma caixinha.
— Esse é um presente de desculpas. Espero que a Dora possa aceitar.
Na caixinha havia um conjunto personalizado de lápis de cor de coelhinhos.
Através de observações, Sérgio notara que a mochila e os pertences de Dora tinham detalhes de coelhinhos.
Ele usou seus contatos para encontrar profissionais de uma produtora estrangeira da Disney, pagou pelos direitos autorais e mandou fazer algo exclusivo para ela.
Cada lápis tinha um coelhinho diferente estampado.
Alguns estavam agachados, outros olhavam para os lados, todos incrivelmente fofos.
— Uau, são coelhinhos!
Os olhos de Dora brilharam. Ela os achou adoráveis.
— Mas a mamãe me disse que não posso aceitar coisas de estranhos.
Sérgio se agachou.
— O papai não é um estranho.
— É o Tio Papai.
Sérgio apertou os lábios, não muito contente.
Dora balançou a cabeça.
— Não pode. Eu tenho que pensar com muito cuidado.
Sérgio percebeu que a garotinha queria, mas tinha medo de aceitar. Por isso, ofereceu-lhe uma saída.
— Tudo bem, então. Eu espero ali fora um pouquinho para a Dora pensar bem.
Sérgio saiu da creche e pediu ao motorista que levasse a criança chorosa primeiro.
Ele passeou pelo pátio por mais um tempo.
No corredor, havia uma exposição de desenhos das crianças.
Dora havia desenhado uma família de animais na floresta.
No vasto gramado verde, havia a Tia Corça e o Tio Antílope comendo grama, assim como a Mamãe Coelha e o Bebê Coelho.
Faltava apenas o pai.
Depois de ver aquilo, Sérgio se sentiu arrasado.
Como se, no coração de sua filha, o pai fosse para sempre um personagem ausente.
Fora arranhada pelo zíper da mochila de outra criança.
— Buáá, dói muito!
O coração de Sérgio apertou.
Dora não chorava alto. Soluçava baixinho, como um filhote de gato, totalmente diferente dos berros escandalosos de Bernardo chamando pela mãe.
Ele ficou sem saber o que fazer por um momento. Tinha vontade de arrancar um pedaço do próprio rosto para colar no da filha.
— Olha, aquele não é o carro da mamãe?
— Vamos lá, o papai leva você pela mão. Não chore.
— Eu não quero ir lá, a mamãe vai ficar triste se me ver assim.
Sérgio escondeu rapidamente os lápis de coelhinhos na mochila dela e saiu do pátio com Dora pela mão.
Júlia acabara de sair do carro e viu Sérgio segurando a filha dela pela mão, enquanto a criança chorava.
Sérgio puxava a menina, que estava visivelmente relutante, jogando o corpo para trás.
A expressão de Júlia mudou instantaneamente.
Sem dizer uma palavra, correu até lá e o empurrou bruscamente.
— Sérgio, solte a minha filha!

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