Aquele empurrão carregava toda a sua força.
Sérgio cambaleou um passo para trás.
Júlia protegeu a filha atrás de si, com o rosto cheio de desconfiança.
A sua expressão era de raiva e defesa, como se fosse sacar uma faca a qualquer momento.
Sérgio percebeu que Júlia o olhava como se estivesse se protegendo de um sequestrador de crianças.
Ele não pôde evitar ofegar.
— Eu... não tenho más intenções com a criança.
Júlia rosnou em voz baixa:
— Cale a boca! Quem te deu permissão para vir ver a minha filha na creche?
— Vê se entende de uma vez por todas, a última vez que fomos à mansão foi porque a avó queria ver a Dora, não por sua causa!
— Se eu te pegar se aproximando da criança de novo sem a minha permissão, eu chamo a polícia!
O interrogatório metralhado atingiu o peito de Sérgio.
Até mesmo uma estátua de barro teria um pingo de sangue quente, quanto mais Sérgio?
— Júlia, você se esqueceu de quem eu sou? A Dora não é só sua!
— Dora, venha aqui.
— Ela não vai com você, suma daqui!
O rosto de Sérgio escureceu de vez.
Ele franziu a testa.
As lágrimas que Dora havia acabado de conter voltaram a escorrer.
— Mamãe, buáá, vamos para casa.
Júlia abraçou Dora com força.
A criança de três anos já estava um pouco pesada.
Era evidente que ela tinha dificuldade para segurar a filha.
Sérgio deu dois passos à frente num movimento instintivo, mas a porta do carro foi fechada na sua cara.
O estojo de lápis de coelhinhos escorregou acidentalmente da mochila da filha.
Com um estalo, espalhou-se pela beira da rua.
Sérgio observou o carro sumir na poeira, os olhos doendo.
Ficou parado ali com os lábios cerrados por muito tempo.
Tanto tempo que, só depois que as outras crianças e os pais foram embora, ele reuniu forças para se abaixar e recolher os lápis.
O olho de um dos coelhinhos estava arranhado.
Outro coelho que estava pulando teve a base quebrada.
— Ai, credo, que susto! Quer levar um chute, agachado aí no chão?
Um pedestre tropeçou nele.
E pisou no coelho que estava com as patas dianteiras levantadas, quebrando-o.
Com os olhos vermelhos, Sérgio levantou a cabeça.
— Qual é o seu problema? Tem até o direito de ficar agachado na beira da rua agora? Pela sua cara, não parecia alguém sem educação.
Com certo atraso, ela lembrou da expressão chocada, irritada e magoada de Sérgio.
Sentiu-se culpada.
Mas não por causa de Sérgio. Ele merecia. Quem mandou ter antecedentes?
Foi apenas por perceber que havia assustado a própria filha.
— Dora, foi a mamãe que errou hoje, acabei perdendo a paciência com você.
— Não, a mamãe não ficou brava com a Dora, foi...
— Foi porque a mamãe não gosta de lápis de coelhinho.
A garotinha inventou uma desculpa para a mãe.
Júlia apertou a filha nos braços e acariciou sua cabecinha.
— Eu vou prestar atenção da próxima vez.
Algum tempo se passou até que Dora desgrudasse do abraço de Júlia.
— Mamãe, o Tio Papai é mesmo uma pessoa má?
Júlia não sabia como explicar isso à filha.
Pensou um pouco antes de responder.
— Não, ele não é mau para a Dora.
— E ele é mau para a mamãe?
— Para a mamãe, ele não pode ser definido simplesmente como bom ou mau.
Dora olhou para ela, confusa.

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