Júlia não costumava deixar Dora sozinha em casa.
Até mesmo quando precisava trabalhar, pedia para Patrícia ou Tati cuidarem dela.
Mas hoje a situação foi inesperada.
— Dora, a mamãe vai dar uma olhadinha lá embaixo e já volta. Você fica assistindo desenho no quarto um pouquinho, pode ser?
Dora assentiu.
Júlia apertou a bochechinha fofa da filha.
Ligou o tablet e colocou no desenho animado.
Estava passando pela porta quando voltou, parou para pensar e pegou o cabo de vassoura na varanda.
Quando a porta do elevador abriu de novo, a luz de presença do corredor estava acesa.
Desde a vez em que viu Lucas e Júlia jantando naquele restaurante, Sérgio vinha acumulando uma angústia profunda, e agora batia com uma agressividade que beirava o descontrole.
Lucas também não estava aliviando, cada soco era certeiro.
— Sérgio, solta, ou eu chamo a polícia!
O cabo de vassoura que Júlia segurava entrou em ação; ela mirou nas brechas e cutucou Sérgio duas vezes com força.
Os dois se separaram por um instante.
Júlia correu imediatamente e ajudou Lucas a se levantar:
— Você está bem?
A expressão de preocupação dela ficou gravada nos olhos de Sérgio.
Júlia estava defendendo o Lucas!
Ele encarou aquele cabo de vassoura.
Sua costumeira calma imperturbável desmoronou por completo.
Nenhum dos dois suportava a presença do outro.
Os xingamentos eram os piores possíveis.
E na hora da briga física, não mediam esforços.
— Sérgio, se você não parar, eu ligo para a polícia.
Uma onda incontrolável de ciúme misturada com a amargura de não ser a escolha de alguém o atingiu com força.
Sérgio mal conseguia respirar.
Seu tom de voz foi gelado e cruel, cada palavra carregada de espinhos.
— Júlia, como você o defende, hein? Por acaso, está com medo de que as pessoas não descubram que o Lucas é o seu amante? Com medo de que os internautas não curtam o casalzinho?
Essa foi, provavelmente, a coisa mais nojenta que ele havia dito em toda a sua vida.
Mas Sérgio parecia um cachorro louco que havia passado fome por três dias e não largava o osso por nada.
Ele não suportava mais ver os dois com toda aquela intimidade.
Lucas abraçou Júlia pelos ombros.
A força de dois homens grandes era maior do que a de um boi. Júlia sentiu-se como a boneca que as crianças disputavam na sala de Dora.
— Solta! Não pode machucar o meu papai e a minha mamãe!
Bem no momento do impasse, Dora surgiu correndo pelas escadas de emergência.
Suando muito, ela abriu seus pequenos bracinhos, colocando-se na frente de Júlia e Lucas.
A voz doce e inocente perfurou os tímpanos de todos.
As palavras "papai e mamãe" soaram como facas, estraçalhando as defesas psicológicas de Sérgio.
Ele viu a própria esposa e filha no lado oposto ao dele.
Observou os rostos cheios de medo, de fúria e de asco que elas faziam para ele.
Quase teve a urgência de explodir aquele prédio inteiro!
Seus olhos se encheram de uma escuridão sem nome, exalando uma aura aterrorizante.
Sérgio encarava Júlia fixamente.

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