Ao ouvir os dois pequenos discutindo, os adultos trocaram olhares confusos.
Apesar de serem ambos crianças da família, as meninas costumavam receber mais mimos e, além disso, as palavras de Bernardo Santana foram, de fato, bastante desagradáveis.
Dona Helena Santana interveio primeiro:
— Bernardo, a Dora é a sua irmãzinha, você precisa ceder e ser gentil com ela, ouviu bem?
Anos atrás, quando Clarice Cardoso estava grávida, pagou um mestre na última semana para escolher um dia de sorte e agendou a cesariana.
Assim que se recuperou do parto, levou o bebê para a mansão, dizendo que o mapa astral da criança traria fortuna à família Santana. Pela data de nascimento, ele era mesmo mais velho que Dora.
Júlia Guedes continuou abraçada à filha.
Sabia que a menina, de costume, era extremamente educada e jamais mandaria alguém se calar do nada. Mas como Bernardo Santana já havia implicado com Dora antes, ela não se incomodou em intervir.
Sérgio Santana aproximou-se e, depois de hesitar um pouco, disse:
— Dora, seja em casa ou fora, tem certas coisas que é melhor guardarmos para nós mesmos, ou dizer de outro jeito.
Júlia Guedes o cortou de imediato:
— Se o Diretor Santana se importa tanto com o filho, deveria tê-lo educado direito desde pequeno, em vez de vir criticar a minha filha.
Sérgio Santana engoliu as palavras secamente.
Não era o que ele queria dizer.
Ele só temia que, longe da proteção dos pais, a franqueza da filha pudesse trazer-lhe problemas.
Dona Helena Santana e Dona Eunice permaneceram caladas.
Mesmo preferindo Dora, não podiam escancarar isso na frente das duas crianças.
Apenas lançaram olhares discretos para que Sérgio ficasse quieto.
Nem tinha reconquistado a esposa ainda, para que tanta pressa em se impor?
Júlia Guedes avisou a senhora e levou Dora escada acima para se lavarem.
Ao passar por Bernardo Santana, apenas deu um breve aceno com a cabeça.
Bernardo não escondeu a irritação e a encarou com um olhar furioso.
Mas os conflitos entre as crianças estavam longe de terminar.
Na noite seguinte, começaram a brigar de novo, desta vez por causa de um brinquedo.
Sérgio Santana mal havia cruzado a porta quando ouviu Bernardo soltar um ai e cair no chão.
Todos se voltaram para a cena.
Viram Bernardo Santana cobrindo o próprio rosto e caindo no choro.
— Você me machucou, roubou minhas coisas, você é mal-educada! Buááá... essa não é mais a minha casa, todo mundo judia do Bernardo.
É inegável que as crianças possuem um talento natural para tirar qualquer um do sério.
Sérgio Santana tinha ouvido Dora dizer com todas as letras, na véspera, que não gostava do menino e ficou preocupadíssimo.
E se a personalidade da Dora estivesse se corrompendo?
Com o rosto fechado, exigiu saber:
— O que foi que aconteceu aqui?
Júlia Guedes aproximou-se rapidamente, de semblante gelado, disposta a tirar satisfações.
Jamais acreditaria que a filha seria capaz de maltratar alguém.
— Sérgio Santana, você não tem o menor direito de fazer isso.
— Não tenho direito? Sou o pai dela, se fez algo errado não devo educar?
Ele reprimiu o restante do pensamento.
Dora herdaria o controle da empresa um dia. Suas expectativas em relação a ela eram infinitamente maiores do que as que tinha por Bernardo.
Nenhum dos dois recuou e a atmosfera no ambiente tornou-se densa.
Aproveitando que ninguém o observava de perto, Bernardo espiou Dora por entre os dedos, esboçando uma expressão vitoriosa.
Hehe, vai levar uma bronca das grandes! Filha daquela mulher nojenta.
O que ninguém esperava era que Dora não derramasse uma lágrima sequer nem tentasse se justificar.
Ao notar que todos olhavam para ela, simplesmente pigarreou.
— Bisavó, Vovó Eunice, Mamãe... vou encenar de novo para vocês, prestem atenção.
O som dos estalos ecoava pela fresta da porta.
Dizia-se que fora a primeira vez que Sérgio batera nele, a primeira vez que realmente impusera limites.
Júlia Guedes gravou o áudio inteiro pelo celular.
Com toda a certeza, se Sérgio tentasse pleitear a guarda no tribunal, teria sérias dificuldades em justificar um comportamento tão explosivo.
Depois de tudo, ele desceu e foi pedir desculpas a Dora.
A menina deliciava-se com sua fruta favorita, melão.
Dona Helena Santana, impressionada com a esperteza da pequena, sorria encantada.
— Nossa Dora é tão esperta, com certeza ninguém vai passá-la para trás no futuro.
Balançando as perninhas curtas, Dora juntou o polegar e o indicador perto do olho e os abriu:
— É porque a Dora tem olhos bons, consigo enxergar direitinho quem é mocinho e quem é o vilão.
Olhando para a família inteira, em especial para Sérgio Santana, ela piscou:
— Será que tem gente que ainda cai nas mentiras dele? Se cair, é porque não é muito esperto, né?
A bisavó achou a carinha dela tão fofa que segurou a barriga de tanto rir.
Sérgio abriu a boca, mas as palavras lhe faltaram, buscando repetidas vezes o olhar de Júlia.
Após desejar boa-noite à senhora, Júlia conduziu a filha aos aposentos.
Sérgio Santana foi logo atrás.
Aproveitando o momento em que Dona Eunice levou Dora para o banho, puxou Júlia pelo braço.
Ele confessou a ela todas as altas expectativas que tinha para o futuro de Dora e explicou o motivo de ter reagido com tanta ansiedade mais cedo.
Júlia Guedes não deu a menor importância.
— Isso é problema seu. A Dora não tem a menor obrigação de suprir as suas expectativas e, muito menos, de servir como um peão para garantir o legado da família Santana.
Ela tentou abrir a maçaneta da porta, mas por mais que forçasse, a porta não cedia.
— O que você está armando agora?

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