Clarice Cardoso mordeu o lábio inferior e se aproximou com passos lentos e elegantes.
Ela ergueu o olhar para Sérgio Santana, uma troca repleta de emoções complexas, sendo a principal delas o ressentimento.
Júlia Guedes pegou o copo de água com limão e deu um pequeno gole.
Sérgio, porém, apressou-se em evitar qualquer mal-entendido, desviando o olhar rapidamente e até mesmo movendo sua cadeira para mais perto da de Júlia.
— Sérgio, faz muito tempo que não participo deste tipo de evento. Como somos duas mulheres, gostaria de colocar o papo em dia com a Júlia.
Júlia lançou um olhar frio para Clarice:
— Não tenho nada para colocar em dia com a Senhorita Cardoso.
Segundo as regras de etiqueta dos jantares ocidentais, homens e mulheres deveriam sentar-se intercalados.
Clarice, é claro, entendia disso, mas preferia incomodar Júlia a sentar-se ao lado de Leonel Guerra.
E se o Sérgio percebesse algo suspeito?
— Senhorita Cardoso, o que gostaria de comer?
Clarice estava como se estivesse sentada sobre alfinetes:
— Qualquer coisa... Tudo bem. Sérgio, peça por mim, por favor.
Sérgio sequer ergueu as pálpebras.
Ele apenas proferiu uma frase de cortesia:
— Sr. Guerra, cuide da dama à sua direita.
Essa era a regra.
O rosto de Clarice empalideceu.
Os três começaram conversando sobre os futuros desafios do projeto e as formas de lucro.
Certas coisas só podiam ser extraídas com sinceridade longe da mesa de negociações.
Clarice não entendia absolutamente nada.
Sua formação era em design; de gestão, ela conhecia apenas o básico do básico e nem sequer estava participando daquele projeto.
Leonel, vendo que ela não conseguia se intrometer na conversa, inclinou-se de propósito para sussurrar em seu ouvido.
Clarice se esquivava repetidamente, morrendo de medo de que Sérgio notasse.
Sérgio não prestava a menor atenção neles. Ao ver Júlia abrir a carta de vinhos, aproximou-se e disse:
— Não peça esses.
Ele acenou, chamando o garçom.
— O vinho tinto que deixei guardado aqui, mande aquecê-lo.
Sérgio participava de compromissos sociais com frequência o ano todo, não sendo um estranho a nenhum restaurante ocidental de renome na Cidade N.
Às vezes, ele abria propositalmente bons vinhos, marcava seu nome e os deixava guardados.
O garçom, ao ouvir aquilo, até mudou de semblante.
Clarice mordeu o interior de sua própria bochecha.
O olhar dela estava fixamente pregado no prato à sua frente; ela não ousava respirar, nem tampouco fazer movimentos bruscos para se esquivar.
Leonel sorria, batendo no copo de vinho com os dedos em um ritmo que acompanhava a sua outra mão.
A toalha da mesa ocultava a imundície e a ambiguidade.
As vozes das conversas ao redor e o que acontecia debaixo da mesa pareciam pertencer a dois mundos diferentes.
Vergonha, terror, pânico — uma miríade de emoções atacava incessantemente os nervos de Clarice.
Ela agarrou a toalha da mesa com força.
Os copos de vinho e os talheres de todos emitiram um tilintar leve, soando extraordinariamente abrupto no interior do restaurante.
Vários olhares se voltaram todos de uma vez em sua direção.
O sangue no corpo de Clarice quase fluiu na direção contrária.
Ela encontrou os olhares de Sérgio e Júlia, não ousando demonstrar nem um pingo de descontrole.
Com as unhas cravadas profundamente nas palmas das mãos, ela estabilizou seu estado de espírito e esboçou um sorriso de desculpas.
— Com licença, vou dar um pulo no banheiro.
Leonel observou a silhueta em fuga com um sorriso malicioso.
Mulheres, afinal, as roubadas sempre tinham um sabor melhor.

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