Dora estava tocando Bach em Dó Maior.
O som do piano saltava pelas teclas.
A melodia exigia independência das vozes das mãos direita e esquerda, soando viva e saltitante, com frases musicais intimamente conectadas, mostrando logo de cara uma sofisticação muito superior ao arranjo de uma única voz do "Parabéns a Você" de Bernardo.
Ao final da música, os convidados aplaudiram com entusiasmo.
Até Clarice precisou forçar um sorriso rígido.
Mas Dora não saiu do banco do piano; ela tocou uma versão de "Parabéns a Você" com doze variações.
A dificuldade das variações reside na quantidade densa de notas de adorno durante o processo, além de várias síncopes e semicolcheias divididas.
Como Bernardo tinha acabado de tocar a versão extremamente simplificada,
na comparação, qualquer um via quem era superior e quem era inferior à primeira vista.
A diferença era tão gritante que até mesmo os bajuladores de antes desejavam encontrar um buraco no chão para se esconder.
Clap, clap, clap.
Sérgio foi o primeiro a aplaudir.
Desta vez, os elogios dos outros foram todos genuínos.
— Diretor Santana, sua filha já participou de algum concurso de piano, não é? Eu assisti a um uma vez e acho que nem os competidores tocavam tão bem quanto a sua Dora.
— Eu nunca achei que a música de aniversário pudesse soar tão bem, parece até que foi especialmente arranjada.
— Está de brincadeira, olha só para a Sra. Júlia! Atores já são do ramo das artes, não é de se admirar que o talento venha de berço.
Com os olhos transbordando sorrisos, Júlia estendeu as mãos.
Dora veio correndo e se jogou em seus braços.
— Mamãe, eu fui bem?
— Foi incrível, a Dora é a melhor de todas.
Sérgio olhava com carinho para a esposa e a filha, sem perceber que pelos olhos de Clarice passava um rápido lampejo de sombra e ciúmes ácidos.
Clarice apertou a taça de champanhe sem se dar conta.
Com um estalo agudo.
A haste da taça quebrou-se.
O vinho pegajoso escorreu por seus dedos.
Desde a época do Sr. Augusto, a empresa tinha muitos projetos e subsidiárias que não geravam lucro.
Sérgio empacotou todas essas indústrias e as transformou em ativos de alta qualidade e com alta margem de lucro no exterior.
Ele atraiu as duas alas para investirem do próprio bolso, e a família Cardoso também quis uma fatia do bolo. Se faltava dinheiro, eles hipotecavam bens; se ainda assim não fosse suficiente, usavam alavancagem.
Mas, sendo a família Santana um império gigantesco, o que seria engolido não eram apenas milhões, mas bilhões.
Será que a família Cardoso não sabia que isso era arriscado? A primeira e a terceira ala não sabiam que deviam agir com cautela?
Claro que sabiam.
Até os investidores do mercado sabem que jogar na bolsa tem riscos, mas ainda assim, não tem gente pulando de prédios todo ano?
Sérgio não temia que eles não mordessem a isca.
Clarice estava totalmente imersa na euforia do dinheiro e do status.
Tanto que, quando foi parada por um velho conhecido no térreo da empresa, ela sequer o reconheceu.
Um homem de boné, magro e pálido, abriu os braços.
— Você se lembra de mim? Eu finalmente te encontrei, por favor, me ajude!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ame-me Outra Vez, Minha Ex!