Mas ele tinha ido justamente para procurar Júlia.
E também estava muito preocupado que as crescentes fofocas na internet a fizessem odiá-lo ainda mais.
Então, Sérgio inventou uma mentira.
— Eu vim a pé. Não tenho mais as permissões da mansão e a placa do carro não está registrada. O motorista me deixou na estrada e já foi embora.
Júlia olhou para Sérgio por dois segundos.
— Então volte a pé.
Ela o atingiu com palavras frias direto no peito.
— O celular do grande Diretor Santana não deve ter sido confiscado como o meu foi no passado, não é?
— Mesmo que tivesse, não há nenhum cão feroz te perseguindo, nem há ninguém te forçando a pular de uma encosta, não é mesmo?
Ao ouvir isso, Sérgio ficou completamente petrificado.
Seu coração parecia ter sido rasgado por um buraco enorme.
Seus lábios se moveram: — Então eu... então eu vou esperar lá fora, até você querer me ver...
A porta da mansão se fechou com um baque surdo.
Sérgio abaixou a cabeça. A mão que havia erguido, no fim das contas, não apertou a campainha outra vez.
Dora estava no segundo andar e só desceu correndo quando chegou a hora de jantar.
— Mamãe, quem era?
Júlia forçou um sorriso, sem responder.
A moça que cuidava da casa trouxe quatro pratos e uma sopa para a mesa.
— Uau, tem o meu favorito: Arroz Doce com Especiarias!
— Mamãe, você estava bonita gravando hoje? Você voou?
— Hoje eu desenhei dois dinossaurinhos azuis na pulseira do relógio do Tio Lucas. Eu ia desenhar rosa, mas o Tio Lucas com certeza não ia gostar...
A chuva de fim de outono caía sem trovões.
Apenas o som incessante das gotas caindo, acompanhadas por um vento gelado.
Júlia escutava o falatório animado da filha em seu ouvido.
Mas ela não pôde evitar lançar alguns olhares pela janela.
Ele já deve ter ido, certo?
Ela riu de si mesma com ironia.
O que estava pensando? Sérgio não era idiota. Ele podia atuar o quanto quisesse, mas como iria maltratar a si mesmo de verdade?
— Mamãe!
— Hum?
Sérgio sentiu uma confusão de sentimentos.
Aquela era, obviamente, a sua casa.
Quem morava nela eram a sua esposa e a sua filha.
Mas ele estava sendo tratado como um malfeitor qualquer.
Sérgio sentou-se no andar de baixo por um momento e começou a tossir.
Seu corpo não parava de sentir calafrios.
Ao menor movimento, ele se sentia tonto.
Ele fechou os olhos para descansar por um momento, mas acabou não resistindo e subiu as escadas.
Ao chegar ao escritório, viu Júlia ajudando a filha a desenhar em um livro ilustrado.
Na estante ao lado, havia um relógio masculino de luxo.
Sérgio ficou atônito.
Seu coração parecia ter mergulhado em uma fonte termal.
Um pouco animado, um pouco emocionado.
Foi então que ele se lembrou.
O seu próprio aniversário estava chegando.

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