[Hahaha, tão obediente com a esposa, parece um cachorrão gigante, não é?]
[A Júlia fez mágica mesmo. Olha o que o Diretor Santana virou na mão dela.]
[O Diretor Santana deve estar cansado de ser capacho, a carinha dele tava até branca. Por favor, Júlia, tenha pena dele, eu quero curtir o romance por mais tempo!]
[Vai ver ele é que tá fraco dos rins, né?]
[Pra você que falou de fraqueza nos rins, qual é o benefício em me matar de rir?]
Júlia foi lendo comentário após comentário.
Ao ler aquele tipo de comentário dos internautas, ela deu uma tossida leve.
E recordou-se, mais uma vez, do som da voz de Sérgio saindo do alto-falante.
Dois minutos depois, ela fez uma ligação para o Dr. Mendes.
O Dr. Mendes lhe assegurou que o corpo de Sérgio não apresentava maiores problemas.
Quando o avião pousou, já era madrugada.
Júlia instalou-se no flat que havia reservado e precisou de dois dias inteiros para superar o jet lag.
Todas as noites antes de dormir, Dora ligava para Júlia.
Aquela era a primeira vez em que Júlia viajava para longe sem se preocupar em estar incomodando outras pessoas.
Ela não queria dar méritos a ele sobre si mesma, mas Sérgio realmente era excelente com a filha.
Ela também ouviu dizer que, depois que a família da Simone foi presa, ele ainda encontrou uma instituição assistencial de confiança para abrigar Bernardo Santana.
— Mamãe, o inverno aqui na Cidade N é muito frio. Aí também tá frio?
— O papai lê historinhas de livro pra mim todos os dias.
— Ontem eu fui no parque de diversões, olha, esse é meu balão de coelhinho.
Júlia escutou as conversinhas animadas e tagarelas de Dora por um tempo.
Sérgio nunca havia feito uma aparição “permitida” nos vídeos.
Ele sempre passava acidentalmente em frente à câmera quando andava perto do escritório.
Se a frequência dos esbarrões não fosse tão alta, Júlia poderia até fingir que eram apenas coincidências.
Hoje, contudo, foi uma exceção.
A videochamada já durava mais de meia hora e não havia o menor sinal dele.
— Onde está o papai?
— O papai tá bebendo um suquinho rosa todo dia, fica vomitando sem parar, e agora ele tá tomando banho.
Dora ficou em silêncio por um breve instante, de cabeça baixa, alisando alguns documentos na mesa.
— Mamãe, você não quer falar com o papai? Ontem de noite, eu ouvi ele chamar pelo seu nome.
Dora apontou para o próprio peito, para a barriga e para a cabeça.
— Ele tá com muita dor aqui, aqui e aqui, ó.
Ao ouvir a filha falar aquilo, Júlia paralisou momentaneamente.
Seu coração pareceu ser bloqueado por uma massa de algodão.

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