Antes do início do banquete de aniversário, Júlia encontrou Sérgio na sala de visitas.
Não esperava que Clarice também estivesse lá.
A voz meiga e frágil atravessava a fresta da porta: — Sérgio, se eu não tivesse ido estudar no exterior, a pessoa mais adequada para se casar com você seria eu, não é?
A mão de Júlia parou no ar antes de bater na porta, e seu coração palpitava violentamente.
Ela sabia que não devia escutar, mas seus pés pareciam ter criado raízes no chão.
Desde o casamento, não era como se Júlia não percebesse a frieza de Sérgio.
Ela achava que, se ele havia aceitado se casar com ela, sentia pelo menos algum tipo de carinho, mas apenas não sabia demonstrar.
Júlia já havia feito essa mesma pergunta várias vezes, mas o assunto sempre era desconversado.
E agora, Sérgio deu a resposta.
— Com certeza — a voz dele soou indiferente, como se falasse a coisa mais trivial do mundo, sem vacilar um segundo.
Havia pregos naquelas palavras, pregando Júlia brutalmente naquele lugar.
Ela acreditava que havia algum pingo de sentimentos reais dentro daquele casamento.
Porém, agora, Sérgio tinha acabado de dar um tapa violento em sua cara.
— Mas você tinha tantas opções, por que acabou escolhendo logo uma... quer dizer, por que escolheu qualquer pessoa? — perguntou Clarice.
Pela fresta, Júlia não conseguia ver a expressão de Sérgio.
A luz refletia nos azulejos com uma tonalidade cinza.
Júlia imaginou que a própria expressão deveria estar igual à do azulejo: gélida e inerte.
A voz de Sérgio soou de novo, firme e agradável aos ouvidos, desprovida de grandes emoções: — Porque ela é obediente, bonita e sabe atuar.
Aquelas palavras perfuraram o coração de Júlia com uma facilidade absurda.
Ela chegou a sentir um leve gosto de sangue na garganta.
Poucos segundos depois, virou as costas e foi embora.
Sua sombra movia-se rapidamente sobre os azulejos.
Aquele piso estava cheio de arranhões, exatamente como o seu casamento.
No começo, meio turvo; depois, foi sendo pisoteado de novo e de novo, até se tornar uma cicatriz feia e irreparável.
— Julinha, a tia está tão animada hoje, você que é tão tolerante, não leve a mal, tá? — Tia Beatriz lançou um pedido de desculpas ensaiado.
Hoje era o aniversário da avó, e ela não queria falar coisas rudes.
Pouco tempo depois, Sérgio desceu amparando Dona Helena.
Clarice fez cara de surpresa e chamou docemente: — Vó!
As duas famílias eram amigas de longa data, então a velha senhora naturalmente ficou feliz.
Quando todos se sentaram, Sérgio e Clarice ficaram lado a lado. Júlia acabou ficando mais abaixo; olhando daquele jeito, parecia que a intrusa era ela.
Dona Helena, que tinha começado do zero junto com o marido, percebeu a cena na mesma hora e a chamou: — Julinha, você é a senhora da família Santana, o que faz aí tão longe? Venha sentar do meu lado.
Essa frase fez a expressão de todos os presentes mudar.
Clarice mordeu os lábios e ergueu um brinde para Dona Helena.
— Minha saúde anda fraca, não vou beber. Ah, Senhorita Cardoso, você não veio no casamento do Sérgio; que tal fazermos assim: na próxima vez que você casar e nos convidar, eu peço para o casal ir brindar à sua felicidade — Dona Helena falou com um sorriso.
— Mãe, a senhora está sendo parcial demais. Nós somos todas noras da família Santana e tivemos festas de casamento de verdade, não somos como essas aí que correm atrás de confusão — resmungou a Tia Simone.

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