Júlia assistia àquela troca de falas entre os dois.
Parecia uma cena de novela dramática.
E deu um sorriso cínico.
Esse sorriso, aos olhos de Sérgio, ganhou outro significado.
Dona Helena não aguentou mais e perguntou, com um tom de sarcasmo, se Clarice estava passando por necessidades; afinal, como explicava o fato de já estar de volta ao país há um mês e continuar usando o carro da família Santana?
Ela falou de maneira polida, mas a indireta não foi nada amigável.
Ao deparar-se com esse obstáculo inesperado, Clarice sentiu-se humilhada, seus lábios tremeram, pronta para começar a chorar a qualquer momento.
Dona Helena não suportava aquele tipo de vitimismo.
Virou-se para Júlia, lançando-lhe um olhar falsamente reprovador:
— Olhe só para você! Eu pergunto as coisas e você não me diz nada.
Júlia ficou confusa; a avó não a havia perguntado absolutamente nada sobre aquilo.
Ergueu os olhos e viu Dona Helena estalar a língua suavemente e lhe dar uma piscadela.
Júlia entendeu na hora: era tudo atuação. Atuação? Ah, essa era sua área.
Abaixou a cabeça imediatamente e, em três segundos, as lágrimas começaram a cair:
— Me desculpe, avó. Eu não deveria ter escondido. Por mais que seja, esse carro é um bem do Grupo Oceano. Eu não devia ter fechado os olhos para o uso indevido de um veículo da empresa.
Clarice já havia preparado as lágrimas, mas suas habilidades de atuação deixavam a desejar; ela havia sido lenta demais.
No momento, ela não conseguia chorar, nem praguejar, e o que saiu foi um sorriso distorcido:
— Júlia, como você pode falar uma coisa dessas?
Júlia retrucou:
— A Diretora Cardoso não estava insinuando agora mesmo que eu fiz fofoca para a avó?
Com três mulheres encenando aquele drama, as têmporas de Sérgio começaram a latejar.
— Chega!
Sérgio usou seu último resquício de paciência e dirigiu-se à avó:
— Vá descansar cedo. Não se junte à Júlia para fazer essas bobagens.
Após a partida do carro, o pátio mergulhou na penumbra.
Os dois caminhavam, um atrás do outro.
Ao chegarem ao segundo andar, Sérgio parou bruscamente.
Ele sentiu um leve cheiro de perfume masculino emanando de Júlia.
Não sabia a quem pertencia, mas com certeza não era dele.
Uma fúria irrompeu no peito de Sérgio:
— É só isso que você sabe fazer, Júlia?
Como se quisesse abri-la ali mesmo.
Para ver o que havia dentro e de quantos truques baixos ela era capaz.
Os lábios de Júlia tremeram levemente.
Sérgio franziu ligeiramente o cenho.
Raramente via a vulnerabilidade estampada no rosto de Júlia.
Na frente dele, ela sempre havia sido dócil, emocionalmente estável, nunca chorava nem fazia barracos.
Aquela Júlia o fez lembrar daquela noite na França.
Na escuridão, ela também pareceu assustada, encolhida em seus braços, tremendo — não se sabe se intencionalmente ou não.
Mas só de pensar que outras pessoas poderiam já ter visto essa faceta de Júlia, sentia uma aversão irritante.
E a razão era simples.
Tinha misofobia; tinha nojo de sujeira.
Irritado por dentro, Sérgio afrouxou a gravata:
— Por isso, Júlia, antes de apontar o dedo para os outros, é melhor se certificar de que você é limpa o suficiente. Caso contrário...
Ele não terminou a frase.
Júlia já havia levantado a mão e, com um estalo seco, acertou-lhe um tapa no rosto.

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