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Amor Falso Herança Verdadeira romance Capítulo 740

Daniel não respondeu. Seu silêncio bastou.

A primeira coisa que deveria fazer era procurar Ayla. Ela esperaria por ele, não importava em que estado voltasse. Só a notícia de que Daniel estava vivo já bastaria para deixá-la em paz.

Mas, daquela vez, ele quebraria a promessa de voltar.

— Você não confia no amor de vocês? Sacrificou tanto por ela. Se Ayla desistisse só porque você...

— Confio. Mas não quero destruir o que houve de mais bonito entre nós. — Daniel travou a mandíbula.

Sua voz saiu baixa, quase sem força, mas cada palavra veio banhada em sangue.

Até Matheus, sempre tão distante de qualquer sentimento, sentiu os olhos arderem.

— Talvez ela sinta muito a sua falta... Talvez, para Ayla, saber que você está vivo já seja o bastante.

— O tempo cicatriza qualquer dor. Ela é forte. Se um ano não bastar, serão dois, três... Um dia, vai passar. Mas, se ficar ao lado de um inválido, vai sofrer pelo resto da vida.

A lucidez de Daniel chegava a ser cruel.

Ele sabia que Ayla sofreria mil vezes mais ao testemunhar sua dor.

Ela jamais sentiria repulsa dele. Ainda assim, os dois já não caminhariam lado a lado. Como poderia arrastar a vida de Ayla para a escuridão apenas para aliviar a própria solidão?

De qualquer forma, seus dias estavam contados.

Se a dor era inevitável, melhor que viesse cedo.

Por isso, mesmo que a saudade de Ayla o levasse à loucura, Daniel precisava se controlar.

Não voltaria a ver Ayla.

— E sua família? Vai mesmo deixar que todos acreditem que você morreu? — Matheus insistiu.

— Não fui um bom filho nem um bom neto. — Os olhos de Daniel ficaram vermelhos, mas sua voz continuou fria.

Seus avós já eram idosos. Mesmo assim, ele os obrigaria a chorar por sua morte.

Era imperdoável.

Com Letícia e Ayla ao lado deles, porém, Daniel acreditava que logo encontrariam forças para superar a perda.

Quanto ao pai...

Provavelmente não sofreria tanto.

Desde que Daniel nasceu, o pai sempre o enxergou como a origem de todo o ressentimento que carregava no peito.

Antes, Daniel nunca conseguia entender Cassian. Carregava contra o pai um ressentimento profundo, alimentado durante anos.

Daniel não gostava de acender as luzes quando ficava sozinho em casa.

Sempre que esperava por Ayla, deixava a escuridão envolver seu corpo e reservava para ela o gesto de iluminar a casa quando chegasse.

Ayla permaneceu imóvel.

Enzo percebeu e acionou o interruptor. Um estalo seco rompeu o silêncio, e a sala se encheu de luz.

— Sra. Ayla, está se sentindo mal? — A preocupação tomou sua voz.

Ayla recuperou a atenção e balançou a cabeça.

Deixou a bolsa sobre o móvel da entrada e caminhou até a sala.

A funcionária e Rebeca já foram embora. Sobre o balcão, Rebeca deixou um bilhete e uma caixa de doces.

Só então Ayla percebeu a fome.

Abriu a embalagem sem demora e, sem nenhuma cerimônia, começou a comer em bocadas grandes.

A doçura intensa afrouxou um pouco o aperto dentro dela.

— Está com fome? Vou buscar mais alguma coisa para a senhora... — Enzo se apressou, preocupado.

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