Quando viu Ayla se aproximar do carro, Gustavo rapidamente recompôs a expressão e caminhou para acompanhar.
Naquele horário, os dois sempre saíam juntos para o trabalho.
— Peça para o assistente levar você. Eu marquei com o corretor, vou ver uma casa hoje. — Disse Ayla.
Gustavo franziu o cenho, surpreso.
— Mas hoje temos uma reunião geral...
— Essa casa é muito disputada. Se eu não for hoje, talvez não consiga fechar. — Interrompeu Ayla. — Você vive dizendo que eu preciso aprender a me satisfazer de vez em quando, não é?
A voz de Ayla soava calma, sem qualquer emoção aparente, o sorriso leve brincando nos lábios.
Mesmo assim, um arrepio percorreu as costas de Gustavo.
Ele tentou disfarçar, forçando um sorriso.
— Tudo bem. Então eu também não vou para a empresa hoje. Quero ir com você ver a casa.
— Não precisa. — Respondeu Ayla, o sorriso se abrindo ainda mais.
Virou-se e, com um toque leve, encostou o dedo no peito de Gustavo. — Quero escolher sozinha. Quando decidir, levo você para conhecer.
Ela sabia exatamente o que se passava na cabeça dele.
Gustavo não queria ir junto por carinho, mas para vigiar Ayla. Se o contrato fosse feito em nome do casal, o imóvel acabaria pertencendo, na prática, a ele e a Bianca.
O tom provocante da mulher mexeu com Gustavo. De repente, ele sentiu um impulso. Segurou o pulso de Ayla e perguntou, meio rindo:
— Está preparando uma surpresa para mim?
— Claro. — Respondeu Ayla, o sorriso travando por um segundo antes que ela puxasse a mão de volta.
— Certo. Faço o que você quiser. — Disse Gustavo, em voz baixa, envolvendo de leve os ombros dela.
Sem alternativa, Ayla suportou o toque, mantendo a calma.
Quando ela entrou no carro e partiu, o sorriso de Gustavo desapareceu.
Talvez fosse imaginação, mas ele sentia que Ayla estava diferente.
Ou talvez... fosse ciúme. Será que ela estava com inveja de Bianca?
Gustavo ajustou o nó da gravata, irritado sem saber o motivo.
Não deveria se preocupar tanto com Ayla.
Por melhor que ela fosse, por mais sincera que parecesse...
Na vida dele, só existia uma esposa, Bianca.
Uma hora depois, Ayla estava diante da imensa janela panorâmica, observando o horizonte do distrito financeiro.
O apartamento que escolhera era uma cobertura duplex independente, totalmente mobiliada e equipada com automação de última geração. O estilo era minimalista e sofisticado, com acabamento impecável e decoração de extremo bom gosto. Tinha mais de trezentos metros quadrados de área útil, não era o maior, mas ocupava o ponto mais valorizado de toda a região.
Ayla já conseguia imaginar o espetáculo das luzes da cidade refletidas no vidro à noite.
— Vai ser este. Prepare os papéis e registre apenas no meu nome. — Disse, satisfeita, voltando-se para o gerente de vendas.
O local estava pronto para ocupação imediata, o que significava que ela poderia deixar, a qualquer momento, aquele "lar" sufocante e repulsivo.
— Claro. — Respondeu o gerente, radiante. Ele realmente acreditara que Ayla estava ali apenas para olhar.
A partir daquele instante, o tratamento mudou.
O gerente a conduziu até a área vip do saguão, mandou servir chá e petiscos e foi pessoalmente buscar o contrato.
Em poucos minutos, bastaria Ayla assinar e passar o cartão; o resto seria resolvido por uma equipe exclusiva.
Enquanto aguardava, uma voz feminina, estridente e cheia de arrogância, atravessou o ambiente:
— Então é você quem quer tomar o apartamento que eu escolhi?
Ayla ergueu o olhar. À sua frente, uma jovem de aparência impecável, roupa de grife, maquiagem perfeita, aproximava-se com passos firmes e expressão hostil.
Atrás dela vinham dois seguranças e uma corretora.
— Está falando comigo? — Perguntou Ayla, surpresa, a voz serena.
— É claro! O bloco A foi o que eu escolhi primeiro. Eu vou comprar aquele! — A mulher tirou os óculos escuros, revelando olhos rasgados e vibrantes, que brilhavam de raiva.
— O gerente não mencionou nenhuma reserva, e você também não pagou sinal. Se eu fizer o pagamento antes, o imóvel é meu. — Disse Ayla, fria, sem se alterar.
Não queria discutir com alguém tão sem razão e se levantou para mudar de lugar.
A mulher, enfurecida, pisou firme o salto no chão, a voz subindo um tom:
— Tanto faz! Eu não vim aqui pedir a sua permissão. Tenho prioridade! Querendo ou não, vai ter de ceder!
Ayla se virou, franzindo o cenho.
— Prioridade?
A mulher ao lado da jovem — a corretora responsável pela venda — falou em tom frio, sem sequer olhar para Ayla:
— Aqui nós fazemos uma verificação de patrimônio antes da venda. Não seguimos a ordem de chegada; a prioridade depende da fortuna de cada cliente.
Ayla franziu ligeiramente a testa.
— Que regra... curiosa. — Respondeu, a voz calma, mas com um toque de ironia.
Nesse momento, o gerente que havia saído para buscar o contrato voltou, visivelmente constrangido.
Aproximou-se de Ayla e, em voz baixa, explicou:
— Me desculpe, senhora. Aquela moça se chama senhorita Barbosa. A família dela é dona da maior marca de brinquedos do país.
Ayla lembrou-se de imediato. Grupo Barbosa — o império dos brinquedos.
Ela tinha lido o nome da empresa ao pesquisar o mercado local depois de receber a herança. O grupo ocupava o quinto lugar no ranking empresarial de San Elívar. Sim, fazia sentido. Aquela senhorita Barbosa realmente tinha motivos para se achar superior.
A corretora voltou a falar, mantendo o mesmo ar de falsa cortesia:
— Eu entendo o seu desconforto, mas infelizmente as regras são essas.
Ayla respirou fundo e respondeu com serenidade:
— Não há desconforto. Só acho a regra pouco justa. Mas, seguindo a lógica de vocês, minha prioridade vem antes da dela. Quero este imóvel.
Ela voltou-se para o gerente ao seu lado.
— Por favor, finalize o processo o quanto antes. Estou com pressa.
O tom era leve, quase tranquilo, mas a mensagem era clara:
A fortuna dela superava a do Grupo Barbosa.
— O quê? — A senhorita Barbosa piscou, sem acreditar.
— O que ela disse? Que tem prioridade? — Repetiu, olhando para a corretora como se tivesse ouvido um absurdo.
A funcionária, confusa, apressou-se em consultar o sistema de reservas.
Não fazia sentido. Se um cliente com patrimônio superior ao dos Barbosa estivesse interessado no imóvel, o escritório inteiro já teria sido avisado, e o diretor-geral estaria ali para receber.
Olhando para a roupa e o jeito de Ayla, a corretora pensou que ela parecia uma mulher comum, no máximo, uma nova-rica.
Como poderia ter mais dinheiro do que a senhorita Barbosa?
— Senhorita, você não entendeu o que eu disse? Aqui tudo depende do patrimônio... — começou a corretora.
— Então verifique. — Cortou Ayla, entregando o documento de identidade.


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