O som de passos aproximou-se gradualmente.
Em meio ao pânico, Gabriela rapidamente recolheu o teste de gravidez e o enfiou no bolso.-
Ao mesmo tempo, uma mão grande pousou em seu ombro, forçando o seu corpo a se virar.
Gabriela enrijeceu de nervosismo. Tentando ajustar suas emoções, ergueu o rosto e viu o semblante bem delineado e belo de Bernardo.
Seus olhares se encontraram. Aqueles olhos gélidos, que raramente mostravam qualquer oscilação emocional, pareciam a superfície de um lago congelado.
Sob a ponte reta do nariz, os lábios finos estavam levemente pressionados. O corpo inteiro dele exalava uma aura fria e impessoal.
Bernardo sempre fora assim, por isso, ao longo daqueles três anos, ela havia se acostumado com a sua indiferença.
Mas na noite anterior, ela testemunhara com os próprios olhos que aquele bloco de gelo, que ela achava que nunca derreteria, havia se transformado em uma poça de água tépida na presença de Letícia.
— Estava chorando?
As pontas compridas dos dedos do homem tocaram nas suas pálpebras.
Os olhos, que haviam chorado a noite toda, estavam um pouco inchados, e o toque fez com que ardessem de dor.
— Tudo isso só porque eu não pude voltar ontem à noite para comemorar meu aniversário com você?
Gabriela agarrou a borda do vestido com os dedos, respirando fundo.
— Eu...
Bem na hora em que ela ia abrir a boca, uma sombra cobriu a sua visão.
Um calor suave posou em suas pálpebras.
— Eu vi as coisas que você preparou...
Era Bernardo, que havia beijado suas pálpebras inchadas e vermelhas. Uma inoportuna sensação de alegria borbulhou no peito de Gabriela, e um vislumbre de luz pareceu surgir naqueles olhos amendoados obscurecidos por sombras.
— Então você...
Mas logo em seguida, suas palavras incompletas foram interrompidas mais uma vez.
— Não prepare mais nada da próxima vez, é perda de tempo.
Perda de tempo? Era porque ele sabia que não iria voltar?
Ele desprezava as coisas que ela havia preparado?
É verdade. Letícia era a amiga de infância enraizada no fundo do seu coração, enquanto ela... para Bernardo, não passava de um incômodo.
Se não fosse pela pressão do velho patriarca da família Barros, Bernardo com certeza já teria se divorciado dela há muito tempo, jogando-a o mais longe possível.
Além do mais, a escolha de Bernardo sobre com quem ele queria passar o seu aniversário, ele não a havia revelado na noite passada?
O que a fazia se iludir de alegria, a essa altura?
A alegria no coração de Gabriela congelou-se em um instante, e seus olhos amendoados escureceram novamente, sendo envoltos por uma névoa densa.
Gabriela fechou os olhos sentindo uma profunda dor. Quando os abriu novamente, Bernardo já havia vestido o paletó, colocado o relógio de pulso, e os botões da camisa preta estavam fechados até o topo, devolvendo-lhe aquela habitual imagem ascética, intocável pelas paixões mundanas.
Vendo que ele já se vestira e ia partir, Gabriela esticou a mão e agarrou-lhe o braço.
— Bernardo, espere, não vá agora, eu tenho uma coisa para...
— Chega.
Bernardo soltou o braço à força e arrumou a gravata na frente do espelho.
Antes de ir embora, ele deu um beijo na bochecha de Gabriela.
— Eu tenho uma reunião importante às nove, o tempo está curto, não seja tão grudenta. Qualquer coisa que você tenha para dizer, deixe para quando eu voltar.
Após proferir essas palavras, ele se virou e foi embora.
Gabriela ficou observando as costas dele se afastando de forma tão resoluta, e num instante suas lágrimas começaram a rolar como chuva.
Bernardo sempre fora um homem de muito planejamento.
Mesmo que houvesse uma reunião urgente, ele com certeza já teria arranjado tudo de forma prévia, deixando bastante tempo de folga.
Apressar-se a sair daquele jeito não significava que tinha nenhuma reunião importante, mas sim que iria acompanhar Letícia e sua filha, não era?
Gabriela apoiou-se na porta do armário, o corpo parecendo desprovido de qualquer força, e deixou-se cair pesadamente no chão frio.

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