— Eu não entendo por que a senhora sempre tenta infundir esse tipo de pensamento em mim e na Manu. — Cecília parou de andar e olhou seriamente para Edna. — A senhora também não tem família. Não anseia por amor familiar?
Ela não sabia como Edna havia chegado ao orfanato. Desde que tinha memória, ela já estava lá. Naquela época, Edna tinha pouco mais de vinte anos. Sua juventude inteira havia sido consumida naquele lugar. Era alguém tão cheia de amor, alguém que cuidava das crianças com dedicação incansável, mas que, às vezes, também conseguia ser egoísta de uma forma que gelava o coração.
— O que há de tão especial para desejar uma família? — Edna respondeu com convicção. — A Manuela vive falando que quer encontrar a família dela. Encontrar para quê? Se eles realmente amassem vocês, não as teriam abandonado.
O coração de Cecília afundou pesadamente.
A palavra "família" sempre lhe pareceu algo distante e desconhecido. Ela havia preenchido aquele conceito estranho com incontáveis fantasias, moldando-o naquilo que desejava que fosse. Imaginava inúmeras possibilidades. A única coisa em que nunca quis acreditar era que havia sido abandonada. Por isso, jamais impediu Manuela de procurar suas origens.
Durante anos, ambas tentaram encontrar suas respectivas famílias, mas nenhuma notícia apareceu. Com o passar do tempo, a esperança foi se apagando. Talvez por isso, quando aquela criança chegou à sua vida, sua primeira reação tenha sido querer mantê-la. Ela teria uma família. Teria um lar.
— Isso não entra em conflito com o meu desejo de ter uma família.
Mesmo sem pais, ela ainda podia ter um filho. Podia voltar para casa depois do trabalho e encontrar alguém esperando por ela. Podia ter alguém com quem se preocupar e alguém que se preocupasse com ela.
— Você definitivamente está envolvida com alguém. — O tom de Edna era quase de certeza absoluta. — Vamos, fale logo. Há quanto tempo conhece esse homem? Que tipo de pessoa ele é? Você vive falando em pedir demissão. Está pensando em se casar?
A conversa havia se desviado completamente. E, mais uma vez, trazida de volta por um raciocínio absurdo.
Cecília simplesmente optou por não responder e continuou caminhando em direção à ala de internação.
Edna observou suas costas por alguns instantes antes de segui-la novamente.
— Ceci! — Ao vê-la entrar, Júlia sentou-se na cama, radiante de alegria.
— Que menina boazinha. Tente adivinhar o que eu trouxe para você. — Cecília pousou a bolsa e pegou uma pequena sacola rosa.
A menina observou a sacola por alguns segundos. De repente, seus olhos brilharam.
— Uma peruca?!
O sorriso de Cecília se alargou enquanto ela tirava da sacola uma peruca de longos cabelos negros e brilhantes.
— Você é muito esperta, Juju. Venha, vou colocá-la em você.
Juju tirou o gorro e se aproximou, virando o corpo para facilitar.
A menina, que antes possuía lindos cabelos escuros, agora estava completamente careca.

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