A expressão franzida de Cecília refletia-se nos olhos profundos de Heitor.
Ele parou a alguns metros de distância.
— Por que você ainda não foi embora?
— Eu...
— Aqui já não tem mais nada em que você possa ajudar. — Sua voz era distante, transmitindo uma clara rejeição à ajuda dele.
Com uma das mãos no bolso, Heitor permaneceu imóvel.
— Cecilínha, vocês se conhecem? — Irene entrou na conversa. — Aquele homem era um canalha! Queria fugir da responsabilidade e ainda tentar arrancar dinheiro da gente. Ninguém teve coragem de intervir, ainda bem que esse senhor apareceu. — Ela então se voltou para Heitor. — Senhor, o assunto foi resolvido? A culpa foi totalmente do outro motorista?
— Sim. — Heitor assentiu.
— Ai, muito obrigada mesmo! — Em seguida, ela olhou para Cecília e sorriu. — Seu amigo foi de grande ajuda. Tem que agradecer como se deve ser. — Depois, baixou a voz e cochichou. — E por que essa cara fechada? Assim fica deselegante.
Embora ela tivesse baixado a voz, o hospital estava tão silencioso à noite que suas palavras chegaram claramente aos ouvidos de Heitor.
Ele arqueou levemente uma sobrancelha e lançou um olhar para Cecília que parecia dizer: "É assim que você agradece?"
Irene era nascida e criada em Santa Marina. Tinha uma personalidade calorosa e extrovertida, falava tudo o que pensava sem perceber a tensão delicada entre os dois.
Cecília respirou fundo e suavizou o tom.
— É que já está tarde. Não queria atrapalhar o descanso do Sr. Heitor.
— Normalmente, ainda estou trabalhando a essa hora. — Enquanto dizia isso, Heitor deu dois passos na direção dela, indicando que não estava tão tarde.
Cecília abriu a boca para responder, mas, antes que conseguisse dizer qualquer coisa, ele passou por ela e seguiu para o interior do hospital.
Ela ficou parada por um instante. A tensão em seu semblante se desfez, substituída por um leve constrangimento.
— Ai, o carro que a Manuzinha chamou para mim chegou! Preciso ir! — Irene exclamou, apressando-se para a saída.
Cecília assentiu e, depois de vê-la partir, seguiu para o quarto de Tetéu.

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