— Não precisa.
O "não precisa" de Cecília se misturou com a pergunta que Manuela fez logo em seguida:
— E o Heitor concorda?
Rodrigo virou a cabeça.
Heitor estava encostado no batente da porta, com seus olhos penetrantes, como os de um falcão, observando a cena com calma.
— Heitor, obrigada por hoje. Quando você for embora, leve a Cecília junto e deixe-a em casa em segurança. Senão eu não vou ficar tranquila.
Manuela e Heitor sabiam da existência um do outro há muitos anos. Mesmo assim, praticamente nunca tinham conversado.
O jeito como Manuela falou fazia parecer que os dois eram velhos conhecidos.
Cecília já estava preparada para o silêncio constrangedor que viria como resposta.
— Vamos.
Para a surpresa de todos, Heitor respondeu com apenas uma palavra.
Cecília pressionou os lábios, hesitou por alguns segundos e acabou pegando suas coisas para ir com ele.
Já era madrugada, ela estava grávida, sem celular e sozinha. Ela sabia muito bem separar as coisas.
Quando entraram no hospital, ela havia devolvido o paletó a Heitor. Agora, ao saírem, o vento da noite estava frio, e ele entregou o paletó de volta a ela.
— Amanhã de manhã há uma videoconferência internacional. Vou precisar que você faça a ata.
Se Cecília ficasse doente por causa daquela friagem, não conseguiria registrar a reunião.
Talvez por ter trabalhado tantos anos ao lado dele, ela sempre entendia perfeitamente o verdadeiro significado por trás de cada frase. Sem discutir, ela pegou o paletó e o vestiu.
O aroma suave de madeira de ágar tomou conta de seu olfato.
Antes, aquele perfume vinha sempre misturado ao cheiro discreto de cigarro. Agora, o cheiro de fumaça havia desaparecido.
Ultimamente, ela raramente via Heitor fumar.
Talvez Nicole simplesmente não gostasse do cheiro de cigarro.

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