Antes mesmo que as pessoas na sala tivessem tempo de reagir, passos apressados ecoaram do andar de cima.
A mãe de Heitor, Tânia Melo, desceu às pressas. À beira dos cinquenta anos, ela mantinha uma figura impecável, bem cuidada como alguém de pouco mais de trinta.
Enrolada apenas em um xale vermelho, ignorando completamente o frio cortante abaixo de zero lá fora, foi até a entrada para receber quem chegava.
Quando os faróis do carro se apagaram, Cecília finalmente viu com clareza que não era apenas Heitor que descia do carro. Nicole estava ao seu lado.
Tânia, que sempre mantinha certa distância e compostura diante dos outros, agora deixava que Nicole se apoiasse em seu braço.
Heitor, com um leve sorriso no rosto, contornou o carro, abriu o porta-malas e pegou várias sacolas de compras, esperando calmamente enquanto as duas conversavam.
Aquela cena cravou-se nos olhos de Cecília como uma agulha.
Ela desviou o olhar, sentindo-se, de repente, completamente deslocada.
Ele havia trazido a atual para casa. E ela, ali, o que estava fazendo ali?
Mas já era tarde para ir embora. Não havia como evitar o encontro.
— O Heitor não está cuidando bem de você? Você emagreceu! — A voz de Tânia se aproximava. — Como vou explicar isso para a família Borba?
Entre o som dos saltos altos, ouviu-se a risada suave de Nicole.
— Minha mãe só se preocupa se eu atrapalho o Heitor no trabalho, nem liga se eu emagreci ou não. Será que a gente foi trocada na maternidade? Porque vocês duas só enxergam o filho uma da outra!
Tânia riu, dando um leve tapinha na mão dela.
As vozes alegres cessaram no instante em que entraram na sala.
Heitor veio logo atrás, carregando as sacolas de compras. Ao ver Cecília, parou por um instante, franzindo levemente a sobrancelha.
A chegada deles quebrou o clima descontraído. E, entre todos, apenas Cecília era a razão daquele constrangimento.
— Oh? Temos visita em casa? — Nicole reconheceu Cecília imediatamente.
Ela era ainda mais bonita do que imaginava. Sentada ali, sem fazer nada, já era suficiente para despertar insegurança e inveja em outras mulheres.
Não era de se admirar que Heitor tivesse se casado com ela.
Não se sabia se Tânia realmente não a havia visto antes ou apenas tinha fingido não ver.
— O que você está fazendo aqui? — Seu sorriso desapareceu e seu tom era de desagrado.
— Fui eu que trouxe a cunha... digo, a Ceci. — Disse Flávia, levantando-se e colocando a bandeja de frutas sobre a mesa. — Por quê? Não posso trazer uma amiga para casa?
— Amiga da Flavinha... — Tânia lançou-lhe um olhar severo, depois virou-se. — Essa menina traz qualquer pessoa para casa.
Ela puxou Nicole para sentar-se.
Heitor lançou alguns olhares profundos para Cecília antes de colocar as sacolas sobre a mesa.
— Continuem conversando. Vou subir para resolver umas coisas do trabalho. — Ele se virou e subiu as escadas.
— Sr. Roberto, Sra. Judite, acabei de voltar da Ardânia com o Heitor. Trouxe presentes especialmente para vocês! — Nicole levantou-se animada, pegando as sacolas.
Distribuiu os presentes cuidadosamente, um para cada membro da família.
Flávia não simpatizava com ela. Pegou o presente, disse um seco "obrigada" e o deixou de lado.
Já os avós, por educação e também por ela ser praticamente a possível futura esposa de Heitor, trocaram algumas palavras cordiais.
— Eu sabia que vocês iam gostar. Ainda bem que escolhi certo! No futuro, viajando mais com o Heitor, vou trazer outras coisas para vocês. — Ela entregou a última sacola a Tânia. — Este é para o marido da senhora. Guarde para ele, Sra. Tânia, por favor!
— Você é tão atenciosa, diferente do Heitor, que nunca lembra de trazer nada para gente. — Tânia disse, sorrindo de orelha a orelha.
Heitor estava parado na escada, a camisa preta com os primeiros botões abertos, a postura relaxada, mas ainda carregando uma elegância natural.
Nicole levantou-se do sofá, mordendo levemente o lábio, alternando o olhar entre os dois.
— Fique um pouco. Preciso que faça a ata de uma reunião.
— Sr. Heitor, faz muito tempo que não trabalho com os assuntos da matriz. Receio não conseguir acompanhar a reunião. — As sobrancelhas finas de Cecília se franziram.
No andar de cima, a luz estava apagada, deixando o rosto dele em sombras.
— Chega de desculpas. Sobe logo. — Disse ele, impaciente.
Logo virou-se e voltou para o escritório.
Cecília pressionou levemente os lábios, sentindo dois olhares de reprovação vindos da sala. Por um momento, hesitou, pensando se deveria subir.
— Ceci, vai logo! — Disse Flávia, puxando-a escada acima. — Senão ele vai me chamar para fazer isso, e ainda vai reclamar que eu faço tudo errado!
Sempre que Heitor trabalhava em casa, era comum Flávia ser arrastada para ajudar. Recusar não era opção e, se fizesse mal feito, era repreendida.
Para ela, Cecília era uma salvadora. Sem dar tempo para recusa, empurrou-a para dentro do escritório e fechou a porta com um estrondo.
O barulho foi tão alto que fez Heitor levantar levemente o olhar.
Cecília vestia um casaco preto largo, com um gorro branco felpudo. Nos pés, sapatos baixos.
Antes, sua aparência era sempre a mesma: salto alto, roupas formais e, no máximo, um casaco elegante no inverno. Sua imagem era completamente profissional.
Heitor parou por um instante, lembrou-se de que durante os dois anos de casamento, ele nunca a tinha visto assim. Sem saltos altos. Sem formalidade.
— Hoje você não foi trabalhar?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!