Cecília, quase instintivamente, puxou o casaco acolchoado para baixo, cobrindo a barriga lisa.
— Fui sim. Acho que estou ficando velha. Este ano estou sentindo mais frio do que o normal. — Ela se aproximou, sentou-se e mudou de assunto. — Precisa do meu notebook? Posso ir buscar no carro.
— Use o meu. — Heitor empurrou o notebook na direção dela.
A imagem de descanso de tela era uma fotografia antiga, as silhuetas de um homem e uma mulher, vistas de costas.
Cecília reconheceu de imediato. O homem era Heitor. E a mulher tinha a mesma silhueta de Nicole.
Sem demonstrar nada, ela desviou o olhar, abriu o arquivo e começou a digitar a ata da reunião mecanicamente.
No trabalho, Cecília e Heitor sempre tiveram uma sintonia impecável. Bastava um olhar dele e ela sabia qual ponto destacar para revisão depois. Um gesto sutil e ela já entendia que deveria encerrar a fala de alguém e passar ao próximo.
Mesmo após meio ano afastada, aquela sintonia ainda existia.
A expressão tensa de Heitor foi se suavizando aos poucos. Sem perceber, sua atenção começou a se desviar do trabalho para Cecília.
Sem o traje formal de antes, o rosto dela era de uma beleza impressionante, jovem, delicada. Seus dedos, finos e claros, pareciam delicados e macios, os mesmos que um dia haviam se agarrado aos seus lençóis.
O ambiente estava aquecido, mas ela não tirava o casaco. Uma fina camada de suor se formava em sua testa. As bochechas estavam levemente coradas, os cílios curvados tremulando a cada piscar.
Cecília era do tipo que era bonita à primeira vista e ainda mais bela quando observada com atenção.
Sem perceber, Heitor se perdeu em pensamentos.
Do outro lado da reunião, alguém terminou de falar. Mas ele não reagiu.
Os dedos de Cecília continuavam a bater no teclado. Ela lançou-lhe um olhar rápido e seus olhos se encontraram.
Seu coração apertou e ela abaixou o olhar imediatamente. Terminou de digitar as últimas palavras, ajeitou a roupa.
— Se está com calor, pode tirar o casaco. A reunião ainda vai demorar. — Heitor notou seus pequenos movimentos, disse apenas isso e voltou à reunião.
Com a consciência pesada, Cecília não ousou tirar.
— Não precisa, não estou com calor.
Ele lançou-lhe outro olhar. Sob a luz, o suor na testa dela já brilhava.
— Continue.
Ele não insistiu.
O suor começou a escorrer, formando pequenas gotas que desciam por seu rosto e umedeciam seus cabelos. Com calor e fome, aos poucos, ela começou a se sentir desconfortável. Seu estômago começou a revirar com azia.
Ela não sabia quanto tempo passou até, finalmente, a reunião terminar.
Cecília levantou-se rapidamente, pegando a bolsa.
— Sr. Heitor, já salvei a ata da reunião. Se não houver mais nada, vou me retirar.
Sem esperar resposta, já havia saído do escritório.
No fim do corredor, uma janela estava entreaberta. O vento frio entrou, trazendo algum alívio.
Mas o mal-estar persistia, seu estômago estava embrulhado. Então ela apressou o passo.
A sala de jantar ficava um pouco distante da entrada, ela planejava sair discretamente, sem ser notada. Mas, ao passar pela sala de estar, o aroma da comida a atingiu.
Ela adorava sopa de peixe. Mas, naquele momento, o cheiro familiar lhe trouxe uma onda de náusea.
— Terminou? Ceci, fica para jantar! — Flávia a viu e imediatamente se levantou.
Cecília balançou a cabeça. Mas esse simples movimento fez o ácido em seu estômago subir violentamente. Ela correu para o banheiro à direita, incapaz de conter a ânsia de vômito.
— Dona Solange, traga um remédio para o estômago. — A voz de Heitor veio, atravessando o som dos passos.
Desde pequena, no orfanato, Cecília se alimentava mal, comendo restos de comida, em horários irregulares. E, com isso, desenvolveu um problema sério no estômago. A família Siqueira sabia disso.
Roberto, que entendia de medicina, já lhe havia receitado alguns tratamentos, desde então, bastava um comprimido ocasional para aliviar.
Mas aquilo não era dor de estômago. Era enjoo de gravidez. E, grávida, não podia tomar remédio.
Cecília enxaguou a boca rapidamente, pronta para recusar. Mas, ao virar-se, o cheiro da sopa de peixe voltou. Ela se agachou e vomitou novamente.
Judite também se levantou, aproximando-se para lhe dar leves tapinhas nas costas.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Após o Divórcio, Um Segredo. O Filho Não É Dele!