Ponto de vista da Selene
"Eu preciso que você me prometa que vai ter cuidado." As mãos enormes de Bastien emolduram as minhas bochechas, e seus olhos metálicos perfuram os meus.
Eu o agarro pelos pulsos, minhas pequenas mãos cobrem apenas metade deles. "Só vou à loja, Bastien."
Sua testa franze ainda mais. "Talvez Donavon deva ir com você, ou melhor ainda: podemos enviar uma das empregadas no seu lugar."
"Sou perfeitamente capaz de fazer compras sem uma babá." Asseguro-lhe com a voz mais doce possível. Enquanto me desvencilho de suas mãos, acrescento. "Você está tão preocupado assim com o panfleto de recompensa?"
"Só quero que esteja segura. Está um caos por aqui ultimamente."
Ele não ter respondido a minha pergunta não me passou despercebido. Então semicerro os olhos. "Aconteceu alguma coisa? Alguém me denunciou para vocês?"
"Não." Bastien promete. "Estou apenas preocupado com tudo o que aconteceu com o bando."
Qualquer conforto que eu tenha tido com a sua negativa some no momento em que ouço a segunda parte da sua resposta. Não há nada de suspeito nisso em si, mas algo simplesmente parece muito estranho. "O que você não está me dizendo?"
O seu imediato "nada" como resposta é a única confirmação que preciso para saber que estou certa.
"Ok, então me explique por que até três dias atrás eu podia ir ao parque sozinha, e agora não posso colocar os pés fora de casa?"
"Claro que você pode colocar os pés fora de casa." Ele suspira. "Só acho que a loja está lotada a essa hora do dia e não quero que você seja incomodada por causa da audiência."
Na verdade, eu ficaria preocupada com isso se eu fosse realmente à loja. "Eu ficarei bem." Insisto. "Entra por um ouvido e sai pelo outro, lembra?"
Bastien ainda está resmungando baixinho quando saio e, mais uma vez, uma sensação estranha me domina quando viro a esquina. É como um formigamento na barriga, como se o meu corpo estivesse tentando me dizer algo que meu cérebro não consegue perceber. É isso que os shifters querem dizer quando falam sobre instintos e pressentimentos?
Na dúvida, vou até a saída de ventilação mais ao longe no corredor. Aprendi desde cedo que esse duto de ar se conecta ao escritório de Bastien, então, se você se posicionar no lugar certo, conseguirá ouvir as conversas lá dentro como se estivessem ao seu lado.
Minha tática compensa quando a voz baixa de Bastien chega até mim um momento depois. "Don, a Selene está indo até a loja. Quero que você a siga." Ele deve estar ao telefone. Após uma pausa, eu o ouço continuar. "Sim, quero guardas atrás dela 24 horas por dia se ela não estiver nesta casa."
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Chegar ao hospital sem ser detectada não é fácil. Donavon, ao que parece, é um perseguidor bastante habilidoso. Tive que contornar dois estacionamentos e passar um sinal vermelho para despistá-lo. Felizmente, também me lembrei de desligar o telefone, bem como o rastreamento embutido no carro.
Vou ter problemas quando chegar em casa, mas não tanto quanto Bastien. Depois que despistei Donavon, a preocupação com a ordem do meu marido abrandou, mas a indignação tomou o seu lugar. Embora eu não tenha certeza do que está acontecendo, é óbvio que Bastien mentiu na minha cara sobre qualquer ameaça que eu esteja enfrentando, e ainda achou por bem invadir minha privacidade mandando me seguirem sem o meu consentimento.
Mais preocupante ainda, Bastien me vigiando o tempo todo é extremamente inconveniente quando estou tentando esconder um segredo tão grande. E se eu seguir o plano de Drake e decidir ir embora, como em nome da Deusa vou fugir?
Quando chego ao consultório do dr. Kane, estou tão nervosa que minha pressão arterial está nas alturas, e a enfermeira me faz sentar e fazer exercícios respiratórios por dez minutos antes de tirá-la novamente.
Quando o doutor Kane entra na sala de exames com um sorriso largo e começa a colocar as luvas cirúrgicas, eu o interrompo. "Não estou aqui para fazer exames."
Ele para e olha para mim com curiosidade. "Oh?"
"Você me ajudou quando estive aqui da última vez." Começo meu discurso sendo bastante sincera, rezando para que ele tenha pena de mim. "Então, eu espero que você possa me ajudar novamente agora."
Percebo que ele parece curioso, em vez de frio e irritado. "Do que você precisa, sra. Durand?"
"Quero saber se existe algo que você possa me prescrever... para..." Paro, incapaz de encontrar as palavras.
"Para quê?" Ele pede. "Tudo bem. Tudo o que dizemos aqui é confidencial, e garanto que não há nada que você possa perguntar que eu não tenha ouvido antes."
"Existe algum remédio que possa mascarar o cheiro dos meus hormônios da gravidez?" Falo logo. "Se eu não quiser... que as pessoas... saibam... Para que eles não possam sentir o cheiro em mim?"
O dr. Kane comprime os lábios e se senta ao lado da cama de exame. "Sra. Durand, vou te perguntar uma coisa e preciso que seja honesta comigo."
Tenho menos de 30 segundos de paz antes que uma voz gutural soe atrás de mim. "Primeira lição para quando quiser se esgueirar, lobinha." Eu me viro e encontro Bastien saindo de trás da porta da frente. "Sempre limpe os seus rastros."
Meu queixo cai e minha mente luta para decidir se deve focar sua presença ou a estranheza de seu esconderijo. "Você estava me esperando aí desde que eu saí?"
"Querida, ouvi você no momento em que chegou." Diz ele em um tom que sugere tudo menos doçura.
Cruzo os braços sobre o peito. "Então presumo que você veio aqui para se desculpar."
Suas garras despontam tão rápido que quase me perco. Opa. "Me desculpar?"
Mudo de apoio de um pé para o outro, e o meu coração começa a bater forte. "Você mentiu para mim e depois fez seus homens me seguirem."
"Mandei os meus homens te protegerem." Bastien ruge estrondosamente. "E você fugiu deles de propósito e se colocou em perigo!"
"Que perigo, Bastien?" Eu o desafio. "Eu sei que você não está mandando me seguirem "24 horas por dia" por causa do assédio de mulheres insignificantes."
Ele espreita com um olhar letal. "Você pode escolher a justificativa que quiser, Selene: duas semanas atrás, meu pai foi assassinado nesta casa e não temos ideia de quem fez isso ou por quê." Ele como começa a fazer a contagem com os dedos. "O bando está contra você e só a Deusa sabe o que essas "mulheres insignificantes" podem fazer para tirá-la do caminho. Ah, e tem um psicopata te procurando com a intenção de drenar o seu sangue como se você fosse uma caixinha de suco humano!"
Imagens de Garrick gritando furioso comigo estouram à minha frente, e eu me encolho e fujo de Bastien, tropeçando nos meus próprios pés. Ele me segura antes que eu caia, mas eu recuo ao seu toque, gemendo de medo.
Xingando baixinho, ele me abraça. "Sinto muito." Ele suspira, me aconchegando perto. "Sinto muito, lobinha, não queria gritar." Bastien murmura, tentando me acalmar com gentileza. "Você só me assustou."
Eu relaxo nos braços dele, e meu medo some tão rápido quanto veio. No entanto, um resquício de dúvida permanece no meu coração. Bastien nunca tinha levantado a voz comigo assim antes, afinal, ele sabe o que gritos e barulhos altos desencadeiam em mim. Ele sempre manteve o seu temperamento sob controle. Sempre.
Além do mais, ele não parece pensar que fez nada de errado, e não acho que posso fazê-lo entender que seu comportamento não foi adequado. Na opinião dele, minha segurança lhe dá permissão para usar qualquer meio e fazer qualquer coisa para me proteger, não importando como eu me sinta ou o que eu queira.
Mesmo aceitando seus carinhos, beijos e conforto, sinto que algo se quebrou entre nós hoje. E não acho que isso possa ser consertado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Arrependimento após a Rejeição
Eu simplesmente amei os 4 primeiros capítulos e espero que não demore muito para atualizar os outros...