— Eu não estou com frio, obrigada. — Tereza dobrou o lenço usado, devolveu para a mão dele e cruzou os braços, analisando-o de cima a baixo. Aquele olhar era a análise profissional de um médico examinando um paciente. — E você... está doente? Está falando de um jeito estranho.
Ela franziu a testa, começando a pensar seriamente, e os dedos batiam de leve no braço de forma inconsciente: — Caio, não esconda a doença do médico. Como era mesmo a expressão... ah, sim, se está doente, vá se tratar, não esconda do médico.
Caio: — ...
A mão que segurava o lenço apertou, o tecido de seda amassou entre os dedos, e as pontas ficaram levemente brancas pela força. A luz do teto do estacionamento batia sobre a cabeça dele, projetando sombras escuras no rosto, impedindo de ver a expressão.
Mas Tereza podia sentir que ele estava rangendo os dentes.
— Não sei o que a Dra. Rose... — ele quase mastigou as palavras, forçando uma a uma por entre os dentes — acha que eu tenho?
Tereza descruzou os braços, assumindo de fato a postura de uma consulta ambulatorial. Ela inclinou a cabeça de leve, o olhar varreu do rosto para o corpo dele e voltou, profissional e calma: — Pelas manifestações clínicas observadas neste momento... deve ser a Síndrome de Reajuste do Limiar Emocional.
— Síndrome de Reset do Limiar Emocional? — Caio repetiu o nome da doença que soava absurdo.
— Sim. — Tereza assentiu, com um tom tão sério quanto se estivesse discursando em uma conferência acadêmica. — Trata-se de um distúrbio comportamental e psicológico de existência apenas hipotética, o qual acabei de nomear de forma provisória. As principais manifestações clínicas são: o paciente apresenta subitamente uma série de falas e ações que não condizem com seus traços de personalidade e comportamento anteriores.
Ela começou a listar um por um, até levantando os dedos com seriedade: — Por exemplo, excesso de preocupação com alguém com quem não tem intimidade; por exemplo, o surgimento de um tom de mimo inexplicável e desconfortável; e também, dizer falas que dão arrepios e são claramente desconectadas da situação real.
Ela fez uma pausa, olhando para o rosto cada vez mais escuro de Caio, e acrescentou: — Pelo meu julgamento preliminar, isso pode ser uma anomalia comportamental compensatória gerada por estresse mental excessivo recente ou após sofrer um grande estímulo emocional. Sr. Mendes, sugiro que vá ao hospital marcar uma consulta na neurologia para um exame detalhado. Ou na psiquiatria também serve, faça um questionário completo de avaliação psicológica.
Caio: — ...
Ele ficou parado ali, ainda segurando o paletó tirado pela metade, com o lenço azul-escuro amassado na outra mão. A expressão no rosto era variada — o choque inicial havia sumido, substituído por uma mudez pesada, quase materializada, misturada com constrangimento e um traço de irritação por vergonha difícil de esconder.
O estacionamento estava tão silencioso que dava para ouvir o zumbido baixo do sistema de ventilação e o som de água pingando em algum canto distante.
Tereza levantou o pulso e olhou para o mostrador do relógio. Os ponteiros marcavam exatamente três e vinte da tarde.
— Sr. Mendes, desculpe, estou com pressa. — Ela disse, abrindo a porta do carro com movimentos ágeis e decididos. — Tenho coisas para fazer, vou indo.
Ela sentou no banco do motorista e fechou a porta. Com um leve clique, as travas se fecharam. Ela colocou o cinto de segurança e ajustou o espelho retrovisor.
Ligou o carro.

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