Philip Caldwell – Narrando.
Alguns dias haviam se passado.
Eu estava trabalhando no automático, quando parei de repente com o que eu estava fazendo.
E algo veio em minha mente.
A cena do café.
As crianças sorrindo e se sentindo completamente a vontade, fez algo dentro de mim se remexer.
Eu não os via sorrindo assim desde... antes da morte dos pais deles.
Então a cena voltou.
O acidente. Os corpos. As ambulâncias. As crianças.
Esfreguei meus cabelos tentando me recuperar. Eu estava tão absorto aos meus pensamentos, que não percebi Alice entrando.
—Senhor Caldwell! Desculpa interromper, o restaurante confirmou a reserva para as vinte horas.
O restaurante. Siena.
Eu já tinha decidido.
O anel estava no bolso interno do paletó desde o início da noite. Eu o senti ali durante todo o jantar, como um peso calculado.
Um passo lógico. Seguro. Planejado.
Assenti olhando para o relógio em meu pulso e me levantei, saindo do prédio para a encontrar.
Passei por uma floricultura no caminho para pegar algumas rosas e ir até ela.
Cheguei ao restaurante confirmando minha reserva e me sentei na mesa, vendo-a chegar instantes depois. Como sempre atrasada, me causando impacto em sua beleza.
Magra, alta, olhos claros, cabelos loiros e roupas elegantes.
Sorri e me levantei, a estendendo as flores.
—Siena. Você está ainda mais linda do que a última vez que nos vimos. – Falei a vendo sorrir e me dar um beijo no rosto.
—Obrigada pelas flores, Phil! – Disse ela, se afastando para que eu empurrasse a cadeira.
Fizemos o pedido e começamos a conversar.
Ela falava sobre viagens, sobre mudanças, sobre “novas fases”. Eu ouvi tudo com atenção, esperando o momento certo.
E quando eu estava pronto, peguei a caixinha e me levantei, me ajoelhando de frente para ela.
— Espera! Eu preciso dizer uma coisa antes — ela disse.
Algo no tom me fez parar.
Ela não estava sorrindo.
Não como alguém prestes a aceitar um pedido.
— Eu não estou feliz, Philip. Não é sobre você. O problema não é você, sou eu!
Eu permaneci em silêncio. A frase. Aquela maldita frase de efeito.
Me levantei respirando fundo.
—Me desculpa, acho que precipitei as coisas.
Ela sorriu triste.
— Não é você. Você é maravilhoso! Eu só não posso continuar. Não estou pronta.
Foi assim.
Sem escândalo.
Sem lágrimas.
Ela terminou comigo na mesma noite em que eu pretendia pedi-la em casamento.
Fiquei sentado à mesa por alguns segundos depois que ela saiu, tentando absorver o que aconteceu.
Então me levantei, paguei a conta e fui embora com o anel ainda no bolso.
As cenas foram rápidas demais.
Dirigir. Chegar em casa. Beber.
O álcool não era sobre embriaguez.

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