Capítulo 73 — A Arte de Quebrar Sem Tocar
O quarto era silencioso demais.
Lívia estava sentada na cama branca, as mãos entrelaçadas sobre o ventre como se pudesse proteger o bebê apenas com a força do próprio medo. A janela enorme mostrava montanhas cobertas de neve. Lindas. Intocáveis. Distantes.
Aquilo não era liberdade.
Era um aquário de luxo.
Ela sabia.
Sentia.
A porta abriu sem barulho.
O fundador entrou.
Sempre impecável.
Sempre no controle.
Como se cada respiração naquele lugar dependesse da autorização dele.
— Dormiu bem? — perguntou com naturalidade perturbadora.
Ela não respondeu.
Apenas o encarou.
Cheia de ódio.
Cheia de dor.
— Você não precisa me odiar — continuou ele.
— Eu preciso de um motivo para não odiar.
O leve sorriso surgiu.
— Eu estou mantendo você viva.
— Você está me mantendo presa.
— Palavras diferentes para a mesma realidade.
O silêncio caiu.
Pesado.
Ele caminhou até a janela.
Observando a neve.
— Adrian está vindo.
O coração dela disparou antes que pudesse impedir.
— Então você deveria fugir.
— Por quê?
Ele virou-se lentamente.
— Porque quando ele chegar… alguém vai morrer.
O estômago dela se contraiu.
— Você quer que eu implore para salvar ele?
— Eu quero que você entenda o que está em jogo.
Ele colocou um tablet sobre a mesa.
Tocou a tela.
Um vídeo começou.
Adrian.
Caminhando com dificuldade em um aeroporto privado.
Ferido.
Cansado.
Mas com o olhar mais perigoso que ela já tinha visto.
As lágrimas surgiram imediatamente.
— Para…
— Ele está destruindo tudo por você.
— Isso é escolha dele!
— Não.
O tom dele endureceu pela primeira vez.
— Isso é obsessão.
O silêncio ficou brutal.
— Ele nunca vai parar.
— Nunca vai te deixar ir.
Cada palavra era calculada.
Precisa.
Cirúrgica.
— Você chama isso de amor?
Outra imagem surgiu.
Uma mulher.
Em um quarto hospitalar.
Segurando um bebê.
— Reconhece?
Lívia franziu a testa.
— Não.
— É Sofia.
O mundo parou.
— O filho dela nasceu prematuro.
— Problemas respiratórios.
— Complicações neurológicas.
O choque foi devastador.
— Isso é culpa sua.
— É culpa da guerra que você insiste em manter viva.
As lágrimas começaram a cair.
Silenciosas.
Incontroláveis.
— Eu só quero ter meu filho em paz…
— Então para de lutar contra mim.
Ele se inclinou levemente.
A voz baixa.
Quase gentil.
— Eu não sou o vilão da sua história.
O silêncio caiu.
Pesado.
Irreversível.
Porque, naquele instante…
Lívia percebeu que talvez fosse possível destruir uma pessoa sem nunca precisar tocá-la.

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