Capítulo 74 — O Nome Que Nunca Foi Dito
O jato pousou em silêncio.
A pista privada estava quase vazia, cercada por montanhas cobertas de neve que pareciam observar cada movimento. Adrian desceu a escada lentamente, o vento gelado batendo contra o rosto ferido.
Ele ignorou.
A dor física era irrelevante agora.
O que doía de verdade estava em outro continente emocional.
Lívia.
Cada passo que dava em direção ao carro blindado parecia aproximá-lo de uma verdade que ele ainda não estava pronto para encarar.
Daniel surgiu ao lado dele.
— Temos três possíveis clínicas.
— Vamos em todas.
— Isso pode levar horas.
— Então a gente não dorme.
O olhar dele estava diferente.
Mais escuro.
Mais profundo.
Mais perigoso.
Entraram no carro.
A neve começou a cair novamente.
Como se a Europa inteira conspirasse para tornar aquela busca mais lenta.
— Tem mais uma coisa — disse Daniel.
Adrian virou o rosto.
— Fala.
— Encontramos um nome.
O silêncio respondeu.
— O verdadeiro nome do fundador.
O coração dele acelerou.
Instinto.
— E?
Daniel entregou um envelope.
— Aleksander Voss.
O mundo pareceu parar.
O sangue gelou nas veias de Adrian.
— Isso é impossível.
— Você conhece?
Ele não respondeu imediatamente.
A mente já corria.
Memórias antigas surgindo.
Salas de negociação.
Arquivos secretos.
Um rosto que ele achava ter enterrado no passado.
— Ele era meu mentor.
O silêncio ficou brutal.
— O quê?
Daniel arregalou os olhos.
— Quando eu tinha vinte e três anos.
— Foi ele que me ensinou como o Atlas realmente funcionava.
O ar dentro do carro ficou pesado.
Carregado.
— Você nunca falou disso.
— Porque ele desapareceu.
Adrian passou a mão pelos cabelos.
O conflito visível.
Violento.
— Eu achei que estivesse morto.
— Ou pior… que tivesse virado apenas uma lenda.
Daniel respirou fundo.
— Então isso significa que…
— Significa que essa guerra começou muito antes de eu conhecer a Lívia.
A realidade caiu como uma avalanche.
— Ele estava me preparando.
— Moldando.
— Transformando.
O olhar de Adrian ficou completamente sombrio.
— E agora ele quer destruir tudo que eu construí.
— Inclusive ela.
O silêncio voltou.
Mas agora carregado de algo novo.
Traição antiga.
Destino inevitável.
— Temos a localização de uma das clínicas — disse Daniel.
— Qual?
— Região de Davos.
Adrian assentiu.
— Vamos.
O carro acelerou.
Cortando a neve.
Cortando o tempo.
Cortando o passado.
Porque, naquele instante…
Ele percebeu que salvar Lívia significava enfrentar o homem que tinha criado o monstro que ele próprio se tornou.
O carro cortava a neve como uma lâmina.
Dentro dele, o silêncio era quase insuportável.
Adrian mantinha o olhar fixo na estrada à frente, mas a mente estava muito longe dali. Cada palavra que Daniel tinha dito continuava ecoando.
Aleksander Voss.
O nome não era apenas um nome.
Era uma lembrança.
Instintiva.
— Você tem certeza?
Adrian apertou o banco com força.
— Eu preciso ter.
O carro reduziu a velocidade.
Uma pequena cidade surgiu à frente.
Luzes discretas.
Ruas vazias.
Um lugar perfeito para esconder segredos.
— A clínica fica a três quarteirões — disse Daniel.
— Quantos homens?
— Difícil saber.
— Então assume que são muitos.
O modo predador voltou completamente.
Os olhos dele analisando tudo.
Saídas.
Entradas.
Sombras.
— Se ele está lá dentro…
— Está esperando você — completou Daniel.
Adrian assentiu.
— Ele sempre gostou de assistir aos próprios jogos.
O coração dele começou a bater mais forte.
Não de medo.
De algo pior.
Antecipação.
— Se ela estiver machucada…
A frase ficou no ar.
Sem final.
Sem limite.
Daniel sabia o que aquilo significava.
Sabia que o Adrian que estava ao lado dele não tinha mais volta.
— Última chance de recuar — disse.
O leve sorriso veio.
Sombrio.
Definitivo.
— Eu nunca recuo quando é ela.
O carro parou.
O motor desligou.
O silêncio da neve tomou conta do mundo.
E naquele instante…
Adrian percebeu que estava prestes a enfrentar não apenas o homem que o criou.
Mas a versão de si mesmo que ele tinha tentado deixar para trás.

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