O piso da escadaria parecia mais escorregadio naquela manhã. Lila descia com passos cuidadosos, o cabelo ainda úmido do banho, vestindo um conjunto de moletom caro, mas longe da elegância que costumava exibir. Estava sem maquiagem, sem salto, sem defesas. O rosto ainda trazia os traços da noite mal dormida e da irritação acumulada desde que Tomás resolveu invadir seu quarto como o mensageiro do apocalipse.
A cada degrau, o som das vozes lá embaixo ficava mais nítido. E mais tenso. A voz de Gabriel Montgomery, seu pai, era a primeira a dominar o ambiente: grave, firme, com aquela entonação que ele usava em reuniões com investidores internacionais ou em encontros com senadores. Quando falava assim, não se pedia a palavra, apenas se escutava.
Lila hesitou no último degrau. Respirou fundo, tentou alinhar os ombros, mas não adiantou. Sabia que o que a esperava seria muito pior do que qualquer trending topic do T*****r.
Ao entrar na sala de estar principal, encontrou o pai em pé diante da lareira, com os olhos faiscando, a expressão dura. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos, o paletó jogado em cima da poltrona, e as mãos nos quadris em pose de batalha.
Na poltrona ao lado, estava Fiorella Montgomery, sua avó, envolta em um xale de renda, com um lenço florido no colo e o olhar entre trágico e prestes a desmaiar. Tomás estava casualmente sentado no encosto do sofá, com um sorriso debochado, como se estivesse assistindo a um episódio ao vivo do reality show da irmã.
— A estrela do escândalo resolveu descer — comentou Tomás, sarcástico.
— Fique calado, Tomás — rosnou Gabriel, antes mesmo de Lila responder. Ele apontou para o sofá com um gesto seco. — Sente-se. Agora.
Ela obedeceu sem discutir.
O fato de não estar disposta a responder já dizia muito. A noite anterior ainda rodava em sua cabeça como uma sirene. A boate, o vestido, a bebida, o beijo, o vídeo.
O vídeo…
Gabriel passou a mão pelos cabelos frustrado. Andava de um lado para o outro, como se contivesse um furacão prestes a explodir.
— Você tem ideia da repercussão da sua atitude? Aquele vídeo? Aquela boate? A forma como você foi exposta?
— Eu estava só me divertindo com amigos, não foi nada demais… — rebateu Lila, sem encarar o pai.
— Nada demais?! — explodiu ele, num tom que fez até Tomás levantar uma sobrancelha. — Você foi arrastada por um homem no meio de uma boate como um saco de batatas de salto alto! O vídeo está em pelo menos oito perfis de fofoca, nos grupos de acionistas e até circulando em círculos políticos!
— Eu sou solteira, não fiz nada demais.
— Solteira? — Gabriel se virou abruptamente, encarando-a. — Você está noiva. Está prestes a se casar com o herdeiro de uma das famílias mais tradicionais do país. Você assinou um contrato. Não pode se comportar como uma influenciadora de quinta!
— Um contrato, pai! Foi isso que você acabou de dizer. Esse casamento é um negócio, não um conto de fadas!
— E negócios exigem postura, reputação! Você acha que pode sair por aí dançando em boates, sendo filmada, se comportando como uma garota que não tem responsabilidades?
— Taylor me arrastou como um Neandertal! E ninguém falou nada sobre isso.
— COMO ACHA QUE ELE SE SENTIU LILA, VENDO A NOIVA DANÇANDO DE MANEIRA LEVIANA AO LADO DE DOIS HOMENS?
— MAS ISSO NÃO LHE DÁ O DIREITO DE ME CARREGAR COMO UM SACO DE BATATAS NA FRENTE DE TODO MUNDO. E POR ACASO O MUNDO ACABOU?
— O mundo não, Lila. Mas o nosso acordo quase.
Silêncio.
Lila arregalou os olhos.
— O quê?
Gabriel voltou a andar pela sala, gesticulando, com os olhos brilhando de frustração.
— Você tem noção do que fizemos para viabilizar esse noivado? Dos milhões que estão envolvidos? Dos contratos com o grupo Remington? Da confiança dos investidores?
— Você está dizendo que meu noivado é um investimento?!
— Claro que é! — rebateu ele, impiedoso. — Você acha que essa união foi pensada com base em flores, anéis e promessas? Foi estratégia. E agora está sendo questionada por causa de um vídeo viral onde você aparece bêbada, rindo, e sendo levada nos ombros pelo homem que deveria representar força e compostura!
— Ah, então agora eu sou o problema e o fazendeiro é a vítima da minha rebeldia?!
Gabriel parou de andar e a encarou, com os olhos fixos e frios.
— Não é sobre culpa, Lila. É sobre imagem e você sempre soube disso.
O silêncio que se seguiu foi preenchido por um suspiro dramático vindo da poltrona. Todos viraram o rosto ao mesmo tempo para encarar Magnólia, que parecia ter envelhecido dez anos em cinco minutos.
Ela puxou o lenço de renda e levou à testa.
— A minha neta… minha única neta… arrastada em público como uma acrobata de circo…
— Vovó, não começa…
— Você vai me enterrar, Lila. É isso. Vou morrer sem te ver de véu e grinalda. E pensar que eu mandei bordar aquele vestido na Itália…
— Ninguém morreu, vovó.

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