Lila não sabia mais onde enfiar o rosto. A cada palavra, sentia-se menor, como se o chão de madeira do alpendre fosse engoli-la a qualquer instante. Taylor, por outro lado, parecia estar se divertindo com aquilo, e o brilho maroto nos olhos dele apenas denunciava o quanto estava saboreando cada segundo do embaraço dela.
Fiorella suspirou dramaticamente, apoiando o queixo na mão, como quem observava uma cena de teatro.
— Ah, Magnólia, não dá pra negar. Esse casal tem química demais. — e, antes que Lila respirasse aliviada, completou: — O tipo de química que faz até o celeiro tremer.
— Vovó! — Lila quase gritou, sufocada pela vergonha, enquanto Taylor simplesmente explodiu em uma risada grave, se contorcendo de tanto rir.
— Eu sempre disse que a paixão de verdade não se esconde — acrescentou Magnólia, balançando a cabeça com aquele ar sábio. — Eu sabia que o meu neto não ia honrar o nome da família.
— Pois é… — Fiorella arqueou as sobrancelhas, com os olhos fixos em Taylor, e soltou em tom maliciosamente baixo: — E, pelo jeito, ele não só honrou como aproveita cada segundo.
Taylor mordeu o lábio para não rir mais, mas a pontada de orgulho em seu olhar era inegável. Já Lila, só conseguia pensar em cavar um buraco, tentou mudar de assunto.
— Vocês não tinham avisado que viriam hoje… — murmurou, nervosa, ajeitando os cabelos em vão.
— Claro que não! — respondeu Magnólia, fingindo indignação. — Se tivéssemos avisado, teríamos perdido esse espetáculo gratuito.
Fiorella gargalhou, cúmplice, e completou:
— E acredite, minha neta, não se preocupe… nós duas já vimos muita coisa na vida. Isso aqui é até fofo comparado com certas histórias do passado.
Lila encarou as duas, horrorizada.
— Fofo?!
Taylor, mordendo a risada, inclinou-se ao ouvido dela e sussurrou baixinho:
— Confessa, princesa… você adora quando fazemos coisas… fofas.
Ela lhe deu uma cutucada no braço, mas isso só serviu para atiçar o sorriso dele.
As provocações pareciam não ter fim. Fiorella cruzou os braços e, de repente, falou com a naturalidade de quem comentava sobre o clima:
— E então, Taylor, você já pensou em quantos bisnetos vão nos dar? Porque com esse jeito que vocês voltaram do passeio, eu diria que não falta disposição.
Magnólia quase caiu da cadeira de tanto rir.
— Fiorella! — ralhou, entre gargalhadas. — Você não tem filtro nenhum!
Taylor tossiu, engasgado, e Lila ficou vermelha da cabeça aos pés.
— Chega vovó pelo amor de Deus!
Foi nesse exato momento que o som de vozes e passos se aproximando trouxe a salvação. Catarina apareceu pelo portão com Maurício ao lado, carregava uma cesta de quitutes feito pela sogra.
— Vovó, que surpresa boa! Trouxemos quitutes feitos pela minha sogrinha.
— Glória a Deus… — murmurou Lila, quase correndo na direção da cunhada para usá-la como escudo humano.
Mas a trégua não durou muito. Assim que os olhos de Magnólia pousaram em Maurício, ela abriu um sorriso afiado.
— Ah, olha só quem chegou… — disse, endireitando-se na cadeira como quem se preparava para soltar a bomba. — Me diga, rapaz, quando é que você vai finalmente pedir a minha neta em casamento?
O silêncio caiu como um trovão. Catarina quase deixou a cesta escorregar das mãos, e Maurício, que até então sorria tranquilamente, ficou estático, com os olhos arregalados.
Taylor não resistiu e soltou uma gargalhada tão forte que precisou se apoiar no batente da porta
— Vovó … a senhora não perdoa ninguém, não é?
Lila, ainda corada, agora ria também, feliz por finalmente não ser o alvo daquelas línguas afiadas. Catarina, por sua vez, olhava para Maurício entre chocada e esperançosa, enquanto ele tentava formular uma resposta que simplesmente não vinha.
Catarina gargalhou, batendo palminhas como uma menina animada e ainda com o sorriso travesso no rosto, virou-se para a avó e deixou escapar, como quem solta um segredo divertido:
— Eu sabia que tinha justificativa para o meu fogo…
Maurício, que até então se mantinha em silêncio, corou até as orelhas e baixou os olhos, sem saber onde enfiar a cara. A vergonha o deixou completamente sem graça, o que só aumentou as risadas ao redor da mesa.
Magnólia, por sua vez, gargalhou alto, batendo a mão na mesa como se aquilo fosse a melhor piada da noite.
— O sangue dos Remington é quente, minha querida. Não adianta disfarçar, vocês são todos iguais! — disse, ainda se abanando, com os olhos marejados de tanto rir.
Maurício, afundado na própria vergonha, preferiu ficar em silêncio, mas o rubor em seu rosto já dizia mais do que qualquer palavra. Catarina, ainda corada, tentava disfarçar rindo, mas a cada segundo ficava mais evidente que o assunto estava longe de morrer ali.
— O sangue dos Remington é quente, minha querida. — repetiu Magnólia, vitoriosa, abanando-se. — E vocês que se preparem, porque essa mesa aqui ainda vai render muitos casamentos e muitos bebês!
Taylor quase engasgou com a risada, Lila cobriu o rosto com as mãos, e Fiorella soltou uma gargalhada tão sonora que ecoou pelo alpendre inteiro.
A confusão parecia ter atingido o auge, mas no fundo, todos sabiam que o comentário de Magnólia havia deixado algo no ar. Um silêncio pesado se insinuava sob as risadas, uma expectativa que pairava entre Catarina e Maurício como uma promessa não dita.
Taylor, ainda rindo, bateu no ombro do amigo quando todos começaram a se dispersar.
— Rapaz… acho que você vai ter que se explicar.
Maurício abriu a boca para retrucar, mas apenas suspirou fundo, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado. O olhar rápido que lançou para Catarina não passou despercebido por Taylor.
Enquanto as vozes da família iam se afastando, restou apenas o som distante das gargalhadas das avós misturado ao farfalhar do vento no alpendre. Taylor inclinou-se para perto do amigo, com aquele tom meio provocador, meio sério que só ele sabia usar.
— Então, Maurício… quando é que você vai tomar coragem de fazer o pedido?
E ali, entre o silêncio cúmplice e o peso da pergunta, começava uma nova conversa que mudaria muito mais do que apenas um jantar em família.

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