Amanda Selfer
Eu só queria respirar.
Foi o que pensei quando me levantei da mesa e disse que ia ao banheiro. Ninguém prestou muita atenção, claro. Todos estavam ocupados brindando ao noivado, conversando sobre ações, cavalos, os novos vinhos italianos... Era uma daquelas festas onde todos sorriem muito, mas os olhos não brilham. Tudo tão perfeitamente montado que beirava o insuportável. Eu precisava sair. Precisava de um pouco de silêncio, de ar, de mim mesma.
Atravessei os corredores de mármore da mansão Montgomery com passos lentos. Minha respiração estava pesada, e havia um incômodo no meu peito que eu fingia não sentir. Não havia dor, ainda não, apenas um pressentimento. Um incômodo que se agitava como uma tempestade prestes a cair.
Foi quando passei pelo jardim.
Vi a porta de vidro entreaberta e um vulto se movendo entre as glicínias. Meus olhos, curiosos e impacientes, buscaram sentido na penumbra do jardim iluminado apenas por pequenas luzes embutidas. E então os vi. Ali. Bem diante de mim.
Taylor e Lila.
O coração deu um salto e logo depois afundou.
Eles estavam tão próximos, tão colados... que a cena parecia tirada de um filme. Ele a puxou pela cintura com aquele jeito que eu conhecia bem. O toque firme, seguro, como se ela fosse dele. O rosto dele se inclinou devagar e, por um instante, ela ainda pareceu resistir, mas então... os lábios se tocaram. E tudo congelou dentro de mim.
Taylor beijou Lila como quem mata a sede depois de atravessar um deserto. Com uma fome antiga, carregada de raiva, desejo e uma urgência quase desesperada. E ela... ela retribuiu.
Meus pés ficaram colados ao chão de pedra fria. O tempo parou, o ar sumiu. E eu, ali, escondida na sombra do corredor, sentia o gosto amargo da verdade subir pela garganta.
Ele a queria. Aquilo não era um jogo, não era provocação.
Era desejo real, sentimento.
Meu coração doeu de um jeito que eu não sabia que ainda era capaz. Eu achava que tinha superado. Que tudo aquilo já tinha ficado para trás. Mas ver os dois ali, como se o mundo fosse deles... fez tudo voltar.
Fechei os olhos.
E a lembrança veio como um vendaval.
Aquela noite. A noite em que ele me fez dele.
Estávamos na fazenda, comemorando o aniversário de dezoito anos de Catarina. Taylor tinha terminado seus cursos e tinha confrontado os pais, dizendo que agora queria a sua liberdade, mas tia Sophia não aceitou muito bem. Ele então resolveu beber. Nunca tinha visto ele beber tanto, foi quando de madrugada aconteceu. A noite estava quente e estrelada. Eu me sentia leve. Tão viva ao lado dele. Tão inteira.
Em algum momento, ele ficou em silêncio. Me olhou por um tempo que pareceu eterno. Depois, passou os dedos pela minha bochecha. Seu toque era quente, seus olhos estavam escuros, profundos como se algo dentro dele tivesse se quebrado e escapado.
— Você sempre esteve aqui, né? — ele sussurrou.
— Que bom. — disse ele. — Juro que achei que tinha feito alguma besteira...
Besteira.
Ele chamou aquilo de besteira. E eu nunca me permiti esquecer.
Abri os olhos de volta ao presente, e o beijo ainda estava lá. Taylor e Lila agora estavam separados, mas o estrago já estava feito. A imagem dos dois se beijando vai me acompanhar por muito tempo, talvez para sempre.
Me afastei devagar, sem fazer barulho, com os olhos marejados. Fui para o banheiro, como havia dito. Me tranquei lá dentro e encarei o espelho.
Meu reflexo me encarava de volta. Os olhos brilhando, o batom levemente borrado. O coração despedaçado.
Abaixei a cabeça e deixei que algumas lágrimas caíssem. Mas só algumas, porque eu ainda era Amanda. E Amanda sempre se recompõe.
Limpei o rosto. Reapliquei o batom e endireitei os ombros.
Quando saí do banheiro, tentei deixar o passado para trás. Tenho que arrancar esse amor de dentro de mim definitivamente, porque Taylor Remington Miller, nunca foi meu e jamais será e essa é a mais pura verdade, por mais dolorosa que seja.

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