A varanda da fazenda adormecia devagar, embalada pelo sossego do fim de tarde. O sol se derramava por entre as frestas do telhado em faixas douradas e quentes, tingindo o piso de madeira com um brilho suave e nostálgico.
Eu estava ali, sentada com Catarina, com as pernas cruzadas, o vestido leve dançando no vento. Ela folheava uma revista velha de decoração, mas o olhar maroto denunciava que a atenção dela estava, como sempre, em mim.
— E então, cunhadinha — disse, deitando o queixo na mão, muito satisfeita consigo mesma — como estão… esses hormônios?
— Catarina! — reclamei, mas rindo, incapaz de disfarçar. — Eu vou fingir que não ouvi.
— Ah, Lila, você me dá tanto material. — Ela balançou as sobrancelhas, teatral. — Preciso me preparar quando acontecer comigo.
Engoli o sorriso e levei a mão ao ventre ainda liso, acariciando de leve, quase sem perceber. Era um gesto que eu não controlava mais: de vez em quando, o toque vinha sozinho, como se o corpo quisesse garantir ao coração que estava tudo bem, que a vida andava no rumo certo. Antes que eu respondesse, porém, a porta da cozinha se abriu com um rangido familiar, e o cheiro doce que invadiu a varanda fez meus olhos brilharem na hora.
— Sonhos! — soltei, com o entusiasmo de uma criança.
Maria surgiu segurando uma travessa cheia deles, dourados, polvilhados de açúcar e canela, recheados até as bordas de creme. O avental florido tinha algumas manchas de farinha, e o sorriso fazia covinhas nas bochechas, como sempre. O cabelo preso em coque baixo, a serenidade nos gestos… havia algo em Maria que sempre me ancorava, como uma casa que a gente reconhece pelo cheiro.
— Eu bem sabia que esse barulho de cadeiras na varanda era fome disfarçada — disse, rindo, enquanto apoiava a travessa sobre a mesa. — E fome de grávida não espera, minha filha. Tem que ser atendida antes que vire tempestade.
— Eu não tô… — comecei, mas a frase morreu porque meus dedos já tinham pegado um dos sonhos. O açúcar grudou na ponta e eu ri, vencida. — Tá bom, talvez eu esteja um pouquinho faminta.
Maria se aproximou devagar, com aquele cuidado que só as mulheres que já viram muita vida nascer carregam nas mãos. Parou diante de mim, e seus olhos foram primeiro aos meus, depois ao meu ventre. O rosto suavizou ainda mais, havia ternura ali, mas também uma espécie de reverência silenciosa.
— Meu amor — disse baixinho, tocando meus cabelos de leve, como quem arruma uma fita, — você tá linda assim, com esse perfume de futuro te acompanhando. Que Deus abençoe seu caminho, e o caminho desse bebezinho que já mora no seu coração.
O biquinho me veio antes do choro. Senti a garganta apertar de um jeito doce, e os olhos marejaram sem aviso. Mordi o lábio, tentando segurar, mas Maria já me conhecia.
— Boa tarde, patroas. — Ela ergueu a jarra. — fiz agora mesmo, está fresquinho.
O suco parecia brilhar nas mãos dela, dourado como o fim de tarde que caía sobre a varanda. Por um instante, tudo pareceu calmo demais, o vento balançando as cortinas, o cheiro de feno, o tilintar dos copos na bandeja. Mas, quando meus olhos encontraram os de Clara, algo dentro de mim se contraiu.
Clara se aproximou com passos leves, e por um instante, tudo se encaixava num quadro bonito demais: o crepúsculo entrando pela varanda, Catarina sorrindo debochada, Maria limpando as mãos no avental florido, e eu ali, quieta, com o coração apertando sem motivo aparente.
Mas o motivo tinha nome: Taylor.
Porque bastou eu cruzar o olhar com Clara, e o passado me cutucou como uma brisa gelada em plena tarde morna.
Por que, então, algo tão antigo ainda conseguia mexer comigo?

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