Ela estava linda, simples como sempre: o cabelo preso num rabo baixo, uma mecha solta caindo no rosto, o avental manchado de laranja e farinha. Tinha aquele ar doce e sincero, o tipo de leveza que deixa qualquer lugar mais bonito. E foi exatamente por isso que meu peito apertou.
Porque, antes de mim, antes de nós, ela já tinha olhado para o meu cowboy com aquele mesmo brilho.
Taylor nunca deu motivo. Nunca teve nada com ela. Ele sempre foi transparente, fiel até nos gestos. Mas, por mais que a razão soubesse disso, o coração… ah, o coração é um bicho tolo. E naquele instante, vendo Clara ali, com o pôr do sol emoldurando o rosto e aquele sorriso gentil voltado pra mim, algo miudinho e quente começou a se espalhar dentro do peito, um ciúme manso, envergonhado, quase infantil.
— Ridículo, Lila! — pensei.
Mas o pensamento não anulou o incômodo.
Ela se aproximou com a jarra, servindo primeiro Catarina, depois Maria. Quando estendeu o copo pra mim, o olhar dela se demorou um segundo a mais e por dentro, algo em mim se armou, como se o instinto dissesse: meu território.
— Obrigada, Clara. — murmurei, aceitando o copo com um sorriso contido. — Tá lindo… digo, o suco.
Ela riu, sem perceber o tropeço das palavras.
— É só suco, dona Lila. — E piscou, brincando. — Mas é feito com carinho.
Ah, ótimo. “Com carinho”.
O tipo de frase inofensiva que, na minha cabeça grávida e desajustada, soou como uma provocação pessoal.
Catarina percebeu antes mesmo que eu piscasse. Era impressionante o radar que aquela mulher tinha para perceber o menor desequilíbrio emocional de quem quer que fosse, especialmente o meu.
Ela me olhou de canto, com os lábios já curvados num sorriso maroto.
— Hum… o clima aqui tá tão doce quanto esse suco. — Deu um gole devagar, saboreando mais a própria observação do que a bebida. — Mas me diz, Lila, você sabia que a Clara e o seu irmão estão saindo?
O suco quase voltou pela garganta.
— O quê?! — tossi, olhando de um lado pro outro, tentando entender se tinha ouvido certo.
Clara congelou, a jarra ainda na mão. Maria tapou a boca, contendo uma risada cúmplice, e Catarina, claro, fingia inocência com a cara mais descarada do planeta.
— Catarina! — exclamei, tentando parecer indignada, mas a voz saiu mais aguda do que eu queria. — Por que você solta uma bomba dessas do nada?
— Porque eu gosto de ver reações sinceras — respondeu, rindo. — E, pelo visto, o assunto te interessou bastante, cunhadinha.
— Interessou porque… — comecei, sem saber exatamente como continuar.
Clara, coitada, estava vermelha até as orelhas.
— A gente não tá “saindo” — disse, em um tom que misturava embaraço e risada. — A gente só… conversa, às vezes.
— Ah, conversa — repetiu Catarina, saboreando cada sílaba. — Esse é o novo termo para passeios sob o pôr do sol, olhares prolongados e caminhonete parada perto do lago, né?
Clara abaixou a cabeça, rindo, e Maria interveio, sacudindo o pano de prato:
Encostei-me na cadeira, observando o sol descendo atrás das colinas. O céu se pintava de tons rosados e dourados, e o cheiro de terra aquecida invadia o ar. Aquele tipo de fim de tarde que só a fazenda sabia oferecer: calmo, vivo, bonito de doer.
Levei a mão ao ventre, acariciando o ponto onde o nosso pequeno segredo crescia em silêncio. Ali estava a prova mais bonita de tudo o que vivíamos, do amor que se fazia casa, terra e raiz.
O riso de Catarina se perdeu ao longe, e, de repente, o som do motor de uma caminhonete rompeu o sossego da tarde.
O ruído familiar veio primeiro fraco, depois mais nítido, misturando-se ao canto distante das cigarras e ao barulho dos cascos dos cavalos no estábulo.
Meu coração disparou.
Catarina olhou pra mim e sorriu, como quem já sabia.
— Olha só… acho que o vento trouxe o teu cowboy, cunhadinha.
Meus olhos buscaram instintivamente a estrada de terra que cortava o campo. O sol batia no para-brisa do carro, ofuscando por um instante a visão, até que vi a silhueta inconfundível, o chapéu jogado para trás, o braço forte apoiado na janela.
Taylor.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro. O peito se apertou num misto de alegria e saudade. Quando a caminhonete estacionou em frente à varanda, ele desligou o motor devagar, ergueu o rosto e me encontrou com o olhar.
O sorriso dele foi instantâneo, aberto, cheio de luz.
E eu… eu simplesmente esqueci de respirar.

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