A porta da frente se abriu de repente, batendo contra a parede em um estrondo seco que se misturou ao rugido distante dos trovões. O vento frio entrou como uma lufada cortante, carregando consigo o cheiro intenso de terra molhada e o som da chuva castigando o telhado e a varanda. O ar dentro da casa pareceu mudar de temperatura, trazendo uma umidade pesada que grudava na pele.
Lila surgiu no batente como se fosse parte da tempestade. O vestido branco, antes leve e fluido, estava agora colado ao corpo como uma segunda pele, revelando cada curva, cada linha do contorno feminino. A água escorria pelos cabelos loiros, os fios longos colavam nas bochechas ruborizadas, fruto tanto da corrida quanto da mistura de raiva e adrenalina que ainda queimava por dentro. Seus passos eram rápidos, quase impacientes, deixando um rastro de marcas molhadas no piso de madeira da sala.
Maria, que estava na cozinha organizando a louça do jantar, foi a primeira a ver a cena. Os olhos castanhos se arregalaram tanto que pareciam que iam saltar do rosto. O pano de prato que segurava escorregou das mãos e caiu sobre a mesa com um som abafado.
— Minha Nossa Senhora! — exclamou, levando a mão ao peito, antes de vir às pressas na direção da moça. A voz carregava susto, preocupação e uma pontada de incredulidade. — Olha o estado em que você tá, menina!
Catarina apareceu logo atrás, atraída pelo barulho, mas parou no meio da sala assim que viu a cunhada, como se o choque inicial a fizesse travar por um segundo. O olhar dela, ao contrário do de Maria, não era apenas preocupado, vinha carregado de julgamento e irritação. A postura era rígida, o queixo levemente erguido, e a entonação saiu afiada, sem rodeios.
— Você enlouqueceu, Lila? — disparou, avançando alguns passos. — Sair nessa hora, com o céu desabando desse jeito, e ainda montando o Diablo?!
O nome do cavalo foi cuspido quase como uma acusação. A incredulidade estava toda estampada no rosto de Catarina, que continuou sem esperar resposta:
— Você tem ideia do que poderia ter acontecido?
Lila passou a mão pelo rosto molhado, empurrando alguns fios para trás, evitando o contato direto com os olhos da cunhada.
— Eu tô bem. — disse, num tom breve, quase seco, como quem queria encerrar o assunto ali.
Mas Catarina arqueou as sobrancelhas, e o tom subiu de um nível:
— Bem? — repetiu, com indignação clara. — Bem, Lila? Você poderia ter se machucado feio, ou pior! Diablo não é cavalo pra brincadeira, e muito menos para ser montado no meio de um temporal, com o chão encharcado e escorregadio! — Ela cruzou os braços com força, como se o gesto fosse um ponto final, embora o olhar exigisse uma resposta. — Isso foi completamente irresponsável.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Lila apertou os lábios, evitando devolver a provocação, mas o brilho teimoso nos olhos traía a falta de arrependimento. Havia uma linha tênue entre desafio e orgulho ali, e ela parecia disposta a se equilibrar sobre ela.
Nesse momento, Maria voltou da cozinha. As mãos traziam uma toalha grossa, de algodão felpudo, que exalava o perfume de sabão e lavanda. Sem dizer mais nada, ela se aproximou de Lila e, com gestos cuidadosos, envolveu o corpo encharcado da moça, ajustando o tecido sobre os ombros como quem tenta proteger algo frágil da violência do mundo.
— Você vai acabar doente, minha filha… — murmurou, num tom baixo e acolhedor, quase materno, que contrastava com a aspereza da irmã. — Vem, vamos esquentar você antes que essa friagem entre de vez.
Enquanto as duas se afastavam pelo corredor, o som suave da toalha roçando no vestido molhado se misturava ao gotejar constante no chão.
No sofá, Amanda assistia a tudo em silêncio absoluto. O corpo estava levemente inclinado para frente, e a xícara de café, ainda meio cheia, repousava esquecida sobre o pires na mesinha de centro. Seus olhos seguiam cada gesto, cada expressão, cada pausa. Não havia um sorriso no rosto, nem qualquer comentário, apenas aquele olhar fixo, frio e analítico, como quem armazena informações para uso posterior.
Lila sentiu o peso desse olhar, um frio diferente percorrendo-lhe a espinha, mas preferiu não revidar nem encarar. Apenas ajustou a toalha ao redor do corpo e seguiu os passos de Maria, sentindo o contraste quase doloroso entre o calor do algodão e o gelo do vestido grudado na pele.
Catarina permaneceu parada no meio da sala por alguns segundos, os braços ainda cruzados, a respiração marcada. Quando soltou um longo suspiro, voltou para a cozinha, murmurando algo inaudível para si mesma.
Amanda, por sua vez, não desviou o olhar da porta até que Lila desaparecesse completamente de vista no corredor.
Maria entrou no quarto ao lado de Lila, fechando a porta com cuidado, como quem queria criar um espaço seguro, longe dos olhares e comentários da sala. O ambiente estava silencioso, exceto pelo som abafado da chuva que ainda caía lá fora, tamborilando no telhado como um lembrete do que havia acabado de acontecer.
Sem perder tempo, ela foi até o banheiro e abriu a torneira da banheira, deixando a água morna começar a encher o espaço de vapor suave. O cheiro de sabonete neutro e do azulejo limpo misturava-se ao calor que, pouco a pouco, tomava conta do cômodo. Maria ajoelhou-se ao lado da banheira, testando a temperatura com a mão e ajustando a torneira para que ficasse perfeita, nem quente demais, nem morna demais, no ponto exato para aquecer o corpo gelado da menina.
— Tire esse vestido molhado — disse num tom que não admitia discussão, mas ainda assim carregava um cuidado genuíno. — E venha tomar um banho quentinho.

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