O vento frio entrou pela porta antes dele. Taylor surgiu no batente, chapéu pingando água, camisa colada ao corpo e botas deixando marcas de lama no piso de madeira. A respiração ainda estava acelerada, e o olhar, duro. Maurício entrou logo ao seu lado.
Maria, que estava no corredor, se virou imediatamente.
— Pelo amor de Deus, menino, entra logo e fecha essa porta! Você vai encharcar a casa toda. — Ela correu para pegar outra toalha no armário.
Catarina veio da cozinha, com o rosto carregado de irritação.
— Então é verdade? — começou, sem rodeios. — Você deixou a Lila sair sozinha, no meio de uma tempestade, montando o Diablo?!
Taylor tirou o chapéu, batendo-o contra a coxa para tirar o excesso de água.
— Eu não “deixei” nada. Ela se levantou da mesa e saiu como um touro brabo, não sabia que ela ia pegar o Diablo e sair montando.
— E o que você fez para impedir? — retrucou Catarina, dando um passo à frente. — Nada! Se o Maurício não tivesse visto, talvez ela estivesse até agora no meio do mato, se arriscando à toa!
Taylor respirou fundo, claramente tentando segurar a irritação.
— Eu fui atrás. E trouxe ela de volta, não foi?
— Trouxe ela de volta?! — Catarina ergueu a voz. — Sabe o que teria acontecido se o Diablo tivesse escorregado naquele campo encharcado? Ou se ela tivesse se assustado e caído?
— Eu sei. — respondeu ele, firme. — Por isso fui atrás dela.
Maria entrou no meio, estendendo a toalha para ele.
— Pronto, já chega. Os dois se arriscaram, mas está tudo bem. Agora tira essa roupa molhada, Lila já está tomando um banho quente, logo depois é o senhor que vai tomar.
Catarina bufou, mas não disse mais nada.
Foi nesse momento que Amanda, que até então permanecia calada no sofá, se levantou. A postura era elegante, mas os olhos carregavam uma centelha de defesa. Ela caminhou até Catarina e encarou a amiga de frente.
— Quem foi imprudente e irresponsável foi a Lila, não o Taylor. — disparou, sem vacilar. — Ela que resolveu sair cavalgando na chuva como se fosse imortal.
Catarina estreitou os olhos, sustentando o olhar da amiga.
— Pode até ser, Amanda… mas assim que ela levantou daquela mesa, ele deveria ter ido atrás. Porque ela é a noiva dele.
— Noiva de mentira. — retrucou Amanda com frieza, cruzando os braços.
Um silêncio pesado caiu na sala por alguns instantes. Até o barulho do vento lá fora pareceu cessar.
Taylor, já com a toalha na mão, quebrou a tensão.
— Mas a Catarina tem razão. — disse em voz firme. — Ela poderia ter se machucado.
Amanda girou a cabeça devagar, encarando-o com uma mistura de incredulidade e firmeza.
— Ela não é nenhuma menininha, Taylor. Não precisa que você fique correndo atrás dela como se fosse uma criança desprotegida.
Taylor não respondeu de imediato. Passou a toalha pelos cabelos encharcados, o olhar distante, como se tentasse encontrar no vazio a resposta certa. Mas seus olhos, no fundo, não estavam nem em Catarina, nem em Amanda, nem em Maria que seguia para a cozinha, estavam em outro lugar. E todos ali sabiam exatamente onde.
Do corredor, quase imperceptível, o ranger de uma tábua denunciava a curiosidade de alguém. Lila estava lá, encostada à parede, ainda com o cabelo úmido e solto caindo pelos ombros. Tinha vestido uma camisola leve, que colava na pele por causa da umidade do banho apressado. Ela segurava firme o tecido no peito, como se fosse uma armadura contra o frio, mas, no fundo, era contra a conversa que atravessava seu coração.
Cada palavra trocada entre Amanda, Catarina e Taylor chegava até ela como se fosse dita bem ao pé do seu ouvido.
"Noiva de mentira."
“Chega. Isso acaba aqui. Eu não vou mais me deixar enganar.”
Maria, que voltava do corredor com mais toalhas, notou de relance a figura da jovem escondida. Os olhos da governanta se estreitaram em preocupação, mas antes que pudesse avisar, Lila deu um passo em falso, a tábua rangeu alto demais e, de repente, todos na sala se viraram.
Catarina foi a primeira a notar.
— Lila? — disse, surpresa, com a voz carregada de afeto, mas também de alarme.
Amanda ergueu o queixo, claramente desconfortável por ter sido pega falando.
Taylor congelou. O olhar dele encontrou o dela, e por um instante, o mundo pareceu parar. Ele ainda segurava a toalha na mão, o cabelo pingava no chão de madeira, mas nada disso importava. A única coisa que importava era que Lila tinha ouvido tudo.
Ela respirou fundo, tentando disfarçar a vulnerabilidade. Endireitou os ombros, mesmo com o rosto corado, e encarou a sala.
— Não se preocupem. — disse, a voz levemente trêmula, mas firme. — Não sou nenhuma criança. Nem preciso que decidam por mim o que eu devo ou não fazer.
O silêncio que se seguiu foi ainda mais pesado que o anterior.
Taylor abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas fechou de novo, inseguro. Catarina avançou um passo, estendendo a mão para a amiga, mas Lila desviou o olhar. Amanda, por sua vez, manteve-se ereta, sustentando a pose, mas o desconforto se refletia nos olhos.
Lila, com o queixo erguido, concluiu:
— Agora, se me dão licença, eu vou para o meu quarto.
Com um movimento rápido, deu as costas e saiu em direção ao quarto. Deitou-se de lado, virando o rosto para a parede, como se assim pudesse enterrar toda aquela confusão.
Mas, mesmo no silêncio do quarto, ainda sentia o fantasma da boca de Taylor sobre a sua.

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