Jessica olhou para aquelas duas notas, sentindo a garganta apertar.
Ela se lembrava de Solange nos tempos do ginásio—
Era uma garota rica, sempre vestida com roupas de marca, com tanto dinheiro de mesada que nunca conseguia gastar tudo.
Também foi aquela princesinha que vivia dizendo que ia levá-la para comer nos restaurantes mais caros da cidade inteira.
E agora, por causa de quatrocentos reais, quase perdeu a vida.
O que será que ela tinha passado nesses anos?
............
Ao sair do hospital, Natan levou os outros de carro, enquanto Jessica ficou com os quatro pequenos, insistindo em acompanhar Solange até em casa.
No caminho todo, Solange repetia que não precisava de companhia, que Jessica estava sendo gentil demais, mas Jessica também tinha suas razões: queria ver como era o lugar onde Solange estava morando agora.
Quando chegou lá, percebeu que era ainda mais precário do que imaginava.
O corredor estreito exalava cheiro de mofo, a pintura das paredes se descascava, e as tábuas do assoalho rangiam a cada passo.
Solange parou diante do "quarto" improvisado com placas de compensado, os dedos inconscientemente cutucando uma rachadura no batente da porta: "Bom... pode me deixar aqui mesmo."
Jessica olhou para dentro.
Uma cama de ferro, com lençol tão lavado que já estava desbotado.
Um banquinho de plástico fazia as vezes de criado-mudo, com meio pacote de biscoito barato em cima.
No canto, alguns sacos plásticos guardavam todos os pertences dela.
Os quatro pequenos se amontoavam no corredor, sem nem conseguir se virar ao mesmo tempo.
Solange sorriu sem graça: "Eu disse que aqui é pequeno, não é lugar para tanta gente assim..."
"Esse lugar..." Jessica sentiu a garganta apertar, "há quanto tempo você mora aqui?"
Solange deu de ombros: "Três meses? Ou quatro?" Ela sorriu: "Melhor que debaixo da ponte."
De repente, Jessica segurou o pulso dela: "Arruma suas coisas."
A vida real, pensava, era como a dela.
"E você?" Jessica perguntou.
Solange encarou o reflexo no leite e respondeu tão baixo que mal se ouvia: "No ano do ginásio, meu pai faliu e se endividou, minha mãe quis se separar dele."
"O tribunal me deixou com meu pai, mas no ano seguinte ele foi preso por crimes financeiros, e minha mãe fugiu à noite com outro homem, os dois me abandonaram."
As unhas dela se fincaram na palma da mão: "No dia em que larguei a escola, fiquei muito tempo parada no portão..."
"No fim, nem tive coragem de me despedir de você."
Jessica se lembrou daquela carteira vazia na sala, sem bilhete de despedida, sem uma última palavra.
Solange parecia ter sido apagada do mundo por uma borracha.
"E depois?" Jessica perguntou baixinho. "E o bebê...?"
Solange de repente sorriu, um sorriso afiado como cacos de vidro: "Só encontrei um canalha, só isso."

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