Um baque surdo ecoou subitamente do andar de cima, de origem incerta, ressoando por toda a mansão vazia.
Nilton enrijeceu, um palpite terrível assombrando sua mente. Será que ela estava no quarto de Otávio?
Enquanto isso, na suíte principal da mesma mansão.
Celeste jazia sobre a cama imensa, sentindo como se toda a sua força tivesse sido drenada. Apenas sua mão direita agarrava com força o braço esquerdo, de onde o sangue gotejava pelas pontas dos dedos e caía sobre os lençóis de seda caros, florescendo como flores de um vermelho escuro.
Essa dor era a única maneira que tinha de se manter consciente.
"Por que ser tão teimosa?" O homem perto da janela se virou, a luz da lua delineando sua silhueta esguia. "O efeito da droga vai continuar, e logo você estará me implorando pelo antídoto."
Otávio, um magnata dos negócios que transitava livremente entre a legalidade e o submundo, e também o homem a quem ela chamou de "padrinho" por doze anos.
Celeste quis dar um sorriso de escárnio, mas descobriu que não tinha forças nem para mover os cantos da boca. Conseguiu apenas forçar algumas palavras por entre os dentes: "Otávio... me solte..."
"Agora nem me chama mais de padrinho?" O homem se aproximou da cama, seus dedos acariciando suavemente a bochecha dela, mas ela, com dificuldade, virou o rosto para se esquivar.
A palavra "padrinho" pairava na boca de Celeste, mas, naquele momento, sentia apenas um nojo profundo.
Apenas no dia anterior, o homem a quem chamou de padrinho por tantos anos a havia abraçado de repente em seu escritório, dizendo que a queria como sua mulher.
Ela pensou que estava sonhando.
Otávio fora profundamente apaixonado por sua mãe e, após a morte dela, nunca mais se casara.
Ela sempre acreditou que o carinho de Otávio por ela era uma extensão do amor que ele sentia pela mãe, uma forma de honrar a memória de sua falecida esposa.
Tendo visto desde pequena o quanto Otávio tratava sua mãe bem, ela nunca havia pensado em outra possibilidade, ainda mais porque...
"Não... esse tipo de cuidado...", Celeste rebateu com dificuldade. O ferimento em seu braço esquerdo já estava dormente, e ela teve que mudar de lugar, desta vez para a coxa, cravando as unhas com força na pele.
Otávio disse, sem pressa: "Cedo ou tarde, você entenderá. Esta droga é apenas para ajudá-la a aceitar a realidade mais rápido. Quando o efeito for completo, você virá me implorar por vontade própria..."
A visão de Celeste começou a ficar turva.
Desde que ela o recusou, Otávio vinha lhe dando essa droga.
A sensação era como se sua alma estivesse presa em uma jaula corporal; embora sua mente estivesse lúcida, ela não conseguia controlar suas palavras ou ações. O mais assustador era que a droga amplificava todos os seus sentidos, a ponto de o atrito do tecido em sua pele parecer uma queimadura.
Se não fosse por um caco de vidro que escondera, usando a dor da automutilação para lutar contra o efeito da droga, ela já teria...
"Por quê...", ela perguntou, usando toda a sua força, "por que agora...?"

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