Eu tinha dois dias para conseguir cinco mil reais.
Dois dias para salvar minha avó.
Ou para assistir enquanto ela morria sabendo que eu não consegui.
Dois dias. Era tudo o que me restava antes que os médicos desligassem a palavra talvez e começassem a falar em inevitável. Minha avó sempre dizia que o coração dela era teimoso, mas naquela manhã, sentada numa cadeira dura de hospital, eu vi o medo nos olhos dela pela primeira vez. E soube que, se falhasse, não haveria desculpa que me salvasse.
Cinco mil reais.
Repito esse número como uma oração enquanto o táxi avança. Não olho pela janela. Se olhar, posso ver a cidade seguir sua vida normal enquanto a minha está suspensa por um fio. Prefiro observar minhas mãos. Tremem. Não de frio; de cansaço. De pavor.
Quando o carro para, eu sei que cheguei a um lugar onde não pertenço.
Desço devagar. O portão à minha frente não convida, não acolhe. Ele avalia. Como se perguntasse o que uma mulher como eu está fazendo ali.
Não olhei para trás. Não podia. Se olhasse, corria o risco de desistir. E desistir não era uma opção quando o monitor cardíaco da única pessoa que me amou de verdade estava marcando o tempo como uma contagem regressiva. Foi pensando nisso que atravessei aquele portão.
Engulo a resposta junto com o orgulho e aperto o interfone.
— Elara Moraes. Tenho uma entrevista.
Minha voz sai mais firme do que me sinto. Talvez seja isso que sobreviver ensina: fingir estabilidade enquanto tudo por dentro desmorona.
Sou conduzida para dentro da casa, a assistente me mostra o caminho em silêncio, mas mal o registro. Tudo em mim estava concentrado em manter o controle do corpo; da respiração, das mãos, do nó apertado na garganta.
— Seja direta e profissional. — aquela mulher me fornece pequenas dicas de como me portar.
Tento prestar atenção, mas minha mente insiste em voltar para outra noite. Outro lugar. Outra porta que se abriu contra mim.
O clube.
As luzes fortes. A música alta. A ordem da gerência para atender a mesa VIP. Eu lembro do copo caindo, do líquido gelado escorrendo pela minha pele, do susto. Lembro de ter levantado as mãos num gesto automático de desculpa.
E lembro, principalmente, do olhar dele.
Não foi raiva. Foi algo mais profundo. Como se eu tivesse tocado numa ferida que não era minha. Como se, de repente, eu representasse tudo o que ele desprezava.
— Você fez isso de propósito — ele disse naquela noite.
Não perguntou. Afirmou.
Tentei explicar. Não fui ouvida.
Perdi o emprego ali. Não só o salário; perdi a sensação de que o esforço valia a pena.
— O senhor vai recebê-la agora — diz a assistente me trazendo de volta ao presente.
Paro diante da porta.
Meu corpo reage antes de mim. Um aperto no estômago. Um frio subindo pela coluna. Um aviso silencioso que não sei explicar.
A porta se abre. E o ar some.
Não.
Não podia ser.
Eu conhecia aquele rosto. Conhecia demais.
Era ele?
Não há dúvidas.
Ele está ali.
Não exatamente como eu lembrava, mas suficientemente igual para que meu coração reconheça antes da mente. O mesmo porte. A mesma quietude carregada. A mesma presença que faz o ambiente se reorganizar ao redor dele.
O passado não voltou devagar. Ele me atingiu de uma vez, brutal, sem pedir licença.
Ele levanta os olhos negros para mim e vejo que o choque foi mútuo.
Por um segundo, nenhum de nós se move.
Vejo o instante em que ele me reconhece. É sutil, mas acontece. O maxilar endurece. O olhar escurece. Algo se fecha dentro dele.
Meu primeiro impulso é pedir desculpa.
Meu segundo é fugir.
Não faço nenhum dos dois.
A porta se fechou atrás de mim com um som seco. Eu conhecia aquele som. Era o mesmo da noite em que perdi o emprego. O mesmo da noite em que fiquei cara a cara exatamente com o mesmo homem de agora.
Ele estava atrás da mesa, mas não parecia sentado; parecia instalado, como se aquele espaço fosse uma extensão do corpo dele. Quando ergueu os olhos, não houve surpresa exagerada. Apenas um endurecimento lento, controlado.
— Então é você — disse.
Não foi acusação. Foi constatação.
E, estranhamente, isso doeu mais.
Era ele.
O homem que me acusou sem ouvir.
O homem que assinou minha demissão como se estivesse apagando uma mancha da própria roupa.
O homem que me fez sair daquele clube com a certeza de que eu não valia nada.
E mesmo assim, ali estava eu, implorando para que pudesse trabalhar para ele. A ironia quase me fez rir. Quase.
Os olhos dele me percorreram devagar. Meu vestido simples. Meus sapatos gastos. Meu rosto pálido. Cada detalhe parecia confirmar algo que ele já pensava ao meu respito.
Meu peito se contraiu. Senti o impulso infantil de explicar tudo de uma vez, como se palavras pudessem consertar aquela primeira impressão que nunca tive chance de dar.
— Eu não sabia que… — comecei.


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