Eu continuei sentada por alguns segundos depois que ele empurrou o contrato na minha direção. Não porque estivesse lendo. Mas porque ainda estava tentando respirar.
O homem à minha frente não era apenas meu chefe em potencial. Não era apenas o pai de uma criança frágil. Não era apenas o homem que me demitira com frieza uma noite atrás.
Ele era o meu cliente misterioso.
O homem da cabine escura. Da voz baixa. Das perguntas que me desmontavam devagar. Ele me perguntava coisas que clientes não perguntam. O que eu lia. O que eu faria se pudesse escolher. Era desconcertante. Era perigoso. E não tinha nada a ver com sexo.
Ele era aquele que eu prometera a mim mesma nunca mais mencionar. Nunca lembrar. Nunca desejar de novo.
Ele nunca me tocou. E talvez por isso tenha sido tão difícil esquecê-lo.
E agora ele estava ali, de terno impecável, assinatura firme no contrato, olhando para mim como se tudo aquilo fosse… irrelevante. Como se tivesse jogado uma bomba no meu colo e estivesse apenas observando a explosão.
— Leia — disse, sem emoção. — Depois decidimos.
Decidimos. Como se eu tivesse algum poder naquela sala.
Peguei o contrato com mãos que não obedeciam totalmente. O papel era pesado. Não pelo número de páginas — eram poucas —, mas pelo que carregavam. Cláusulas. Regras. Limites que não eram limites. Eram cercas.
Li a primeira linha. Depois a segunda. Meu estômago começou a se contrair.
— Isso não é um contrato de trabalho — murmurei.
Ele se recostou na cadeira.
— É o único tipo de contrato que ofereço.
Continuei lendo.
Horários indefinidos.
Disponibilidade integral.
Residência obrigatória.
Saídas condicionadas à autorização prévia.
Meus olhos se moveram mais rápido.
Cláusula de confidencialidade absoluta.
Proibição de mencionar o clube.
Proibição de mencionar o passado.
Proibição de mencionar… ele.
Meu coração bateu forte.
— Você está tentando me apagar; como se eu não fosse existir na sua vida — eu disse, levantando o olhar.
— Estou tentando evitar problemas — respondeu, com calma.
Continuei.
Proibição de vínculos emocionais. Com a criança.
Com qualquer membro da casa.
Soltei uma risada curta, incrédula.
— Isso é cruel.
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse analisando uma peça defeituosa.
— Isso é necessário.
— Para quem? — perguntei.
— Para mim.
A resposta foi seca. Direta. Sem vergonha. Fechei o contrato devagar.
— Você não quer uma cuidadora — falei. — Quer controle.
A questão era que aquilo não era apenas um contrato. Era uma escolha. Não entre aceitar ou recusar um emprego — isso seria simples demais. Era entre ir embora agora, preservar o pouco de controle que ainda me restava… ou ficar e atravessar uma linha da qual talvez não houvesse retorno.
Meu corpo gritava para sair. Minha razão também. Mas toda vez que eu pensava em levantar, a imagem da menina voltava. O jeito contido da tosse. O olhar atento, silencioso, como se estivesse esperando algo que ninguém nunca ficava tempo suficiente para oferecer.
Se eu saísse agora, quem ficaria? A questão ali não era sobre ele. Era sobre não deixar a garota sozinha outra vez.
Algo passou pelo rosto dele. Rápido demais para ser lido com clareza. Mas passou.
— Controle mantém pessoas vivas — disse, por fim. — Emoção não.
— A sua filha não é um projeto de risco — rebati. — É uma criança.
Ele se levantou. O movimento foi brusco o suficiente para me fazer recuar na cadeira sem perceber.
— Não ouse me dizer quem ela é. — A voz dele não subiu. E foi isso que tornou tudo mais perigoso. — Eu sei exatamente quem ela é — continuou. — Sei quando ela tosse. Sei quando ela finge dormir. Sei quando ela não quer comer. Sei quando está com medo.
— Então por que não sabe o que fazer quando isso acontece? — perguntei, antes que pudesse me conter.
Ele me encarou como se eu tivesse atravessado uma linha invisível.
— Cuidado — disse, baixo.
Meu coração martelava, mas eu não desviei o olhar.
— O senhor me chamou aqui para testar limites — respondi. — Esse é o meu.
Ele deu dois passos na minha direção.
— Você acha que eu preciso de você?
— Acho que precisa de alguém; assim como sua filha precisa — respondi. — E você odeia isso.
O golpe foi certeiro. Vi o maxilar dele se contrair. Os dedos se fecharem lentamente.
— Você não faz ideia do que está dizendo.
— Faço — rebati. — Porque já vi isso antes. Pessoas que acham que perder o controle é pior do que perder quem está ao lado.
Ele se afastou de repente, como se minhas palavras queimassem.
— Chega — disse. — Ou você aceita as regras, ou vai embora agora.
Meu peito subiu e desceu rápido. Olhei para o contrato. Para a assinatura dele. Para a armadilha elegante que ele havia construído. E o meu orgulho estava prestes a me sufocar, porque eu me recusava a me submeter aquele homem.
— Você não perguntou se eu concordo — murmurei.
— Não preciso — respondeu. — Este trabalho não é para quem precisa ser convencido.
E foi quando algo se partiu dentro de mim. Levantei-me.
— Então acabou.
Ele me olhou, impassível.
— Vá.
A palavra caiu como um empurrão. Peguei o contrato com força. Minhas mãos tremiam agora, sem controle.


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