Ele não respondeu.
O silêncio caiu entre nós com um peso quase físico, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível dentro do quarto. A pergunta ainda estava suspensa no ar — passei no teste? consegui o emprego? — mas ele não a tocou. Nem com palavras, nem com o olhar.
Os olhos dele permaneceram em mim por mais alguns segundos do que o necessário. Não avaliando meu corpo. Avaliando minha reação. Como se estivesse tentando decidir o que eu faria se fosse deixada ali, sem resposta, mais uma vez.
A filha dele já estava sentada na cama, abraçando um travesseiro pequeno, observando-nos em silêncio. A tosse não havia voltado. Aquilo parecia incomodá-lo mais do que qualquer coisa.
Ele se virou primeiro.
— Venha comigo.
Não foi um pedido. Também não foi uma ordem explícita. Foi dito no mesmo tom de quem já espera obediência, mas não exige submissão. Isso, percebi, era o tipo de poder mais difícil de enfrentar.
A assistente abriu a porta antes que eu me movesse. Olhou para mim rapidamente, como se quisesse dizer algo — ou me avisar de algo —, mas se conteve. Apenas indicou o corredor.
Dei um último olhar para a menina. Ela me encarava com uma curiosidade silenciosa agora, menos defensiva. Ergui a mão num gesto pequeno, quase um aceno. Ela não respondeu, mas também não desviou o olhar.
Aquilo ficou comigo.
Seguimos em silêncio até o escritório. O contraste me atingiu de novo: o rosa delicado ficando para trás, substituído pelo cinza frio, pelo vidro, pela cidade distante. Era como atravessar dois mundos que não deveriam coexistir sob o mesmo teto.
A porta se fechou atrás de nós.
Ele caminhou até a mesa, mas não se sentou. Encostou-se na lateral, cruzando os braços. Eu permaneci de pé, esperando. Não por respeito. Por instinto de sobrevivência.
— Sente-se — disse, sem me olhar.
Sentei.
Ele demorou a falar. Caminhou até a janela, observou a cidade por alguns segundos. Eu sentia que aquilo fazia parte do jogo. O silêncio como instrumento. O tempo como pressão.
— Há quanto tempo você percebe esse tipo de tosse? — perguntou, finalmente.
A pergunta me pegou de surpresa.
— Como assim?
Ele se virou devagar.
— Igual a da minha filha. — O olhar era direto. Incisivo. — Não em pacientes. Não em livros. Na prática.
Respirei fundo.
— Esse tipo específico? — confirmei.
Ele assentiu.
— Desde que minha avó ficou doente — respondi. — Primeiro era só à noite. Depois começou durante o dia também. Sempre curta. Sempre contida.
Ele franziu o cenho.
— Contida?
— Crianças e idosos aprendem rápido quando não querem incomodar — expliquei. — Eles tentam controlar o corpo.
O maxilar dele se contraiu.
— Quem disse que ela não quer incomodar?
— O jeito como ela tosse — respondi com cuidado. — Não é descuido. É contenção.
Ele se afastou da janela e começou a andar pelo escritório, passos lentos, calculados.
— O corpo reclama por ela — completei. — O enrijecer dos ombros. O cansaço excessivo. A respiração curta quando pensa que ninguém está olhando.
Ele ficou em silêncio outra vez. Em seguida, riu baixo. Um som sem humor.
— Médicos não falaram nada disso.
— Médicos escutam pulmões — respondi com cuidado. — Nem sempre escutam crianças e suas emoções.
Ele se virou para mim com mais força do que antes.
— Você não é médica.
— Não — concordei. — Mas aprendi a observar quem amo quando ninguém mais está prestando atenção.
Algo mudou ali. Não foi no rosto. Foi no ar.
— E o que mais você observa? — perguntou, mais baixo.
A pergunta não era só sobre a filha. Eu sabia disso.
— Observo quando alguém está tentando cuidar… e quando está apenas tentando controlar — respondi.
O silêncio se estendeu.
Ele voltou para a mesa e finalmente se sentou. Cruzou os dedos à frente do corpo, apoiando os cotovelos.
— Você fala demais para alguém que precisa de um emprego — disse ele.
— E o senhor testa demais para alguém que precisa de alguém — retruquei de volta.
Ele sorriu. Pela primeira vez. Um sorriso breve, quase imperceptível. Perigoso.
— Horários indefinidos — disse, mudando o assunto. — Você não sai quando quer.
Meu coração acelerou.
— Morar aqui — continuou. — Pelo menos durante a semana.
Engoli seco. Ele realmente estava me contratando?

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