KIARA
Agata se virou e, de repente, seus olhos ficaram cravados no bichinho descansando contra o meu peito.
Ela arqueou uma sobrancelha, um tanto cética.
—Sério? O tédio está mesmo te afetando —resmungou enquanto terminava as runas—. O nome dele é Elbraham… o gato entediado.
—Elbraham? —murmurei, um tanto divertida por um nome de velho para um gatinho tão lindo.
—Não é um gato —o príncipe disse de repente, parado a alguns metros, olhando para ele com cautela, como se eu estivesse carregando uma bomba prestes a explodir—. Você não deveria estar segurando ele assim.
—Ele não quer machucar você ou vocês dois já estariam mortos, e acho bom que você não se incomode que ele a ajude nesta prova, já que você leva todas as vantagens —Agata disse a ele, sentando-se contra a parede do fundo, comendo amêndoas tiradas de sei lá onde e bem relaxada, como uma árbitra.
—Não me importo se ela tiver ajuda, acho justo —o príncipe parecia mortalmente sério e solene.
Eu não estava entendendo metade de nada. Deusa, como é ruim ser ignorante.
—Muito bem, os dois fiquem um de frente para o outro e dentro do círculo de runas —ela nos indicou.
E foi o que fizemos. Tentei colocar o gatinho estranho no chão antes disso, mas ele subiu pela minha roupa e se sentou no meu ombro.
—Espera, você vai cair…
—Deixa ele fazer o que quiser e, acima de tudo, Kiara —ela me olhou com aqueles olhos que faziam o coração parar—. Confie nele lá dentro, ele é a sua melhor vantagem.
Lá dentro? Onde vão me colocar?
—O príncipe vai forçar a sua magia a sair, vai fazer o que for necessário para te obrigar, então confie nos seus instintos. Quase nunca nada é o que parece… Comece, príncipe. Vamos ver como a sua energia ressoa com a da Kiara.
Espera… já estamos começando!
Virei para ele como se fosse um inimigo mortal, e meus olhos foram direto para aqueles dourados que começaram a faiscar com aquela magia poderosa saindo dele.
De repente, o brilho foi tão intenso que eu não consegui sustentar o olhar; o calor das runas no chão se ativou, me mergulhando no encantamento.
Quando abri os olhos de novo, eu não estava na cabana, mas naquele corredor escuro e em um momento da minha infância que eu tinha querido esquecer com todas as minhas forças.
Mesmo assim, aqui estava… ele estava cavando nas minhas fraquezas.
O peso sobre o meu ombro se desequilibrou e algo quente voltou a estar entre os meus braços.

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