KIARA
—DreamWalker? —murmurei, sem entender do que Agata estava falando.
—Sim. Não tenho muito tempo para te explicar, mas, basicamente, você consegue se infiltrar na parte mais vulnerável de um ser... o mundo interior dele, a paisagem dos sonhos, o reino onírico, como você quiser chamar...
Agata me explicava enquanto me dava de beber uma poção que me fez franzir a testa de tão amarga, mas me devolveu as energias quase na hora.
Eu estava sentada na banquetinha enquanto ela se certificava de que eu estava bem e me contava do que se tratava toda essa loucura.
—Resumindo, você se infiltrou nas lembranças bloqueadas ou reprimidas do príncipe, algo que ele mesmo, ou talvez outra pessoa, não quer que seja descoberto...
—Outra pessoa? —murmurei, olhando para Alistair.
Seus pés flutuavam acima do chão e o cabelo dele se movia como se estivesse submerso em pequenas correntes de água.
—Você não pode contar a ele nada do que viu, muito menos que consegue acessar o mundo interior dele e tomar o controle.
De repente, ela se inclinou e me segurou pelos ombros, com uma expressão de total seriedade.
—Isso é muito sério, Kiara. Você não pode contar a ninguém que é uma DreamWalker. Manipular os Nemunaes também é impressionante, mas não é algo tão raro.
—Mas o Alistair entrou nas minhas lembranças.
—Não é a mesma coisa. Além disso, isso só aconteceu porque você é iniciante. Ainda não sabe se proteger direito. Isso não é algo que ele poderia fazer comigo, nem com ninguém que conheça o básico de defesa.
—Então... —entendi de repente.
—Ninguém gostaria que uma estranha se esgueirasse pelo seu subconsciente, num mundo onde guarda seus medos e suas fraquezas, passeando por ali como se fosse o próprio jardim, até manipulando suas lembranças e, o pior de tudo...
Olhei para ela, expectante, fixa no cenho franzido do rosto dela.
Parecia estar em dúvida se devia me contar ou não.
—O pior? —repeti.
A magia ao redor de Alistair oscilou um pouco, e isso pareceu apressar a decisão de Agata.
—Você já morreu num sonho? Quero dizer, morrido de verdade, não só quase morrido... —ela me perguntou, e eu neguei com a cabeça.
Já tive muitos pesadelos, principalmente com o bullying e as coisas ruins que vivi na minha matilha.
Até já tive paralisia do sono, aquele terror de pensar que nunca mais vai acordar, mas no fim, no último segundo, eu sempre acordo.
—Agora imagina que alguém sabe que você tem o poder de se infiltrar no mundo onírico dele e matá-lo enquanto ele está indefeso. Se essa projeção espiritual morrer, você nunca mais acorda —ela me disse, se endireitando e me atravessando com o olhar.
—Até o mais poderoso Rei Feiticeiro teria medo de você —sussurrou, como se estivesse dizendo isso para si mesma.
Depois voltou a cravar os olhos em mim.
—A verdade é que não sei se estou fazendo a coisa certa ao desbloquear algo tão perigoso para você... DreamWalker, Dark SoulReaper e outros dons sombrios não são exatamente bem vistos...
—Eu nunca machucaria ninguém —eu disse, levantando num pulo.
Uma rajada de vento chicoteou de repente o interior da cabana.
Agata olhou para onde a magia de Alistair estava se infiltrando através do encantamento dela. O tempo estava acabando.
—Nunca diga nunca... —sussurrou enquanto caminhava até a lareira, me deixando com mais dúvidas do que respostas.

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