NARRADORA
«De novo, a escuridão o invadia e ele estava dentro daquele armário, olhando pela fresta a lembrança de sua mãe sendo torturada por Héctor.
Ela gritava e chorava no chão, fazendo o coração de Alistair voltar a doer. Quantas vezes ele havia revivido aquela lembrança horrível.
Tinha vontade de sair de seu esconderijo e defender a mãe, poupá-la de tanta dor, mas sabia que não podia interferir.
Era apenas uma cena que havia vivido quando era criança e espiava por aquele esconderijo.
No entanto, tudo o que aconteceu em seguida era muito diferente do que tinha gravado a ferro e fogo na memória.
Os olhos do Alistair adulto observaram a expressão do feiticeiro, e não era ódio nem maldade o que havia em seu olhar.
Héctor terminou o feitiço horrível que suprimia a magia fênix, e a angústia nele era óbvia.
—Elisa! —ajoelhou-se para sustentá-la entre os braços, enquanto ela chorava e se agarrava a ele com o corpo trêmulo.
As runas no chão iam se apagando.
—Você não pode continuar fazendo isso, esse homem não merece tanto sacrifício! Olhe para mim, olhe para mim…!
Héctor segurou suas bochechas e a fez encará-lo.
—Um homem que te ama de verdade não te obriga a fazer isso com a sua magia, mesmo que você diga que é para curá-lo da ferida na alma. Ele nunca vai se dar por satisfeito!
Alistair franziu o cenho. Seu pai havia lhe dito que tinha aquela ferida na alma por causa da luta com Héctor… Como era possível que tivesse dado a mesma desculpa à sua mãe?
—Prometi a ele que estaríamos sempre juntos. Fique tranquilo, isso é só temporário. Preciso aplacar as chamas fênix antes de entregá-las a ele para fortalecê-lo. Só estou protegendo o trono para o meu filho… —a voz de Elisa ressoou fraca, apertando o coração de Alistair.
—Não, você só está protegendo o trono para ele! Se ele é tão fraco para ser rei, que abdique. Eu não vou fazer isso com você de novo, Elisa, não pretendo enterrá-la com minhas próprias mãos!
Héctor estava relutante em continuar acorrentando-a com sua magia de Nemunaes. Via-a enfraquecer ao reprimir sua fênix, ao compartilhar sua energia vital com aquela sanguessuga do rei.
Alistair viu claramente: a preocupação no pai de Kiara, sua amizade incondicional exposta… aquelas lembranças eram verdadeiras, e ali não se mostrava o monstro que ele acreditava existir.
Lorde Héctor não era quem roubava o fogo da rainha.
—Não posso protegê-la para sempre, Elisa, e Alistair também me preocupa… Sinto que você está escondendo algo de mim. Eu posso ajudá-la, mas, se você não falar claramente comigo… —Héctor a levantou, apoiando-a contra si.
—Está tudo bem, não seja bobo. Como acha que eu esconderia algo de você? —os olhos claros o encararam com um sorriso cansado, mas Alistair podia perceber num só olhar… sua mãe mentia.
Mal conseguia se manter de pé.

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