ISABELLA
Tremi da cabeça aos pés quando ouvi o som de unhas arranhando o vidro.
Ele se inclinou pra frente e eu recuei, como se fosse atravessar a superfície.
Mas parecia só conferir como o capacete tinha ficado.
Mesmo assim, meu coração enlouqueceu e eu encarava, de olhos bem abertos, o rosto de neon na viseira do capacete.
Parecia aquelas abóboras decoradas de um jeito bem creepy no Halloween.
Engoli o nó na garganta e me arrisquei a me inclinar pra frente.
— Você realmente não tá me ouvindo? Oi... — sussurrei contra a superfície gelada.
Fascinada com as luzes vibrantes, como se eu fosse uma mariposa bêbada na frente de uma lâmpada muito brilhante.
— Ganha por mim, gato, e eu juro que você vai ser o meu favorito pra sempre — acrescentei quando tive certeza de que ele só tava usando o vidro como espelho e não conseguia ver pro outro lado.
Depois de uma pausa, ele saiu andando pelo corredor em direção à pista de alto risco.
“Uau, isso foi intenso... eu quase juraria que ele pegou a gente.”
Thera tava rindo agora, depois do susto.
“Você não serve nem pra captar o cheiro dele, bela loba que você é.” Estalei a língua e saí pra procurar o William.
“A única coisa que eu sinto é todo o vodka que você bebeu... gostosa. O que a gente precisa agora é de uma boa trepada.”
“Cala a boca, porca, e me leva de volta pro quarto.”
Cambaleando pelo corredor, subi a escadinha e fui atrás da nossa porta.
Abri, e o cheiro das garotas e do William me confirmou que eu tava no lugar certo, mas não tinha ninguém ali.
Me ajeitei ali, na minha cabeça ainda achando que elas estavam no banheiro vomitando.
Sentei no sofá que ficava de frente pra parede transparente enorme.
A vista era privilegiada e deu pra ver direitinho quando ele entrou na pista.
“Ei... essa moto me é familiar.” Thera comentou, com os olhos opacos.
“Pra mim também...” tentei pensar com coerência, mas vamos ser sinceras, eu não tava no meu momento mais brilhante.
E, além disso, toda a minha atenção foi capturada pelo corredor.
Quando ele saiu, as arquibancadas enlouqueceram, e eu juraria que ele levantou a cabeça até a direção deste camarote.
A sirene de largada ecoou, dando início, e os sete motociclistas dispararam, derrapando na terra arenosa.
O circuito tava cheio de voltas perigosas e curvas traiçoeiras, além das jogadas sujas dos competidores.
— Cuidado! — eu me levantei do assento quando vi que dois iam fechar ele.
Parecia que queriam tirar ele do caminho.
Mas, no último segundo, ele freou de uma vez, fazendo a roda traseira subir no ar, girando rápido.
O corpo inteiro dele se inclinou pra frente, com a frente da moto quase beijando o chão.
Deusa, que manobra mais arriscada e louca.
Os outros dois bateram um no outro e o meu corredor conseguiu controlar a fera dele pra voltar pra corrida.
Ver ele correndo deixava a galera maluca e disparava a adrenalina em mim.
Ele subia as rampas como um maluco maníaco e tão sexy. Era pura poesia.
Ele fez várias demonstrações de domínio no ar, no topo das rampas, sob os refletores, e sempre aterrissava firme.
— Você é o melhor! Eu vou ficar rica! — eu gritei quando vi ele cruzar a linha de chegada em primeiro, depois da última volta.
A moto fez um semicírculo que ficou marcado no chão, soltando fumaça e roncando enquanto a multidão enlouquecia.
Lá em cima, clarões estouraram no céu, fogos de artifício estranhos, parecendo magia.
Formando o rosto enorme de uma bruxa com o cabelo multicolorido.
Que emocionante.
Parece que não eram só os lobisomens que curtiam aquilo.
Ele olhou pra cima de novo, na minha direção, e eu já tava até imaginando que ele tinha dedicado a vitória pra mim quando levantou a mão com o punho fechado.
Eu sorri que nem uma idiota e apertei as mãos contra o vidro gelado.
Fiquei esperando, curiosa, ele tirar o capacete de bad boy, mas isso não aconteceu.
Ele foi embora, deixando os técnicos ajeitarem a pista pra próxima corrida.
Hoje eu ganhei muuuuito dinheiro, tirando o que o William me emprestou, e eu sabia que esse golpe de sorte era graças a ele.
Batidas soaram na porta e eu levei um susto.
Caminhei até a entrada achando que fosse o garçom das bebidas.
Só de pensar em continuar bebendo agora, meu estômago revirou.

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