ISABELLA
— Olha só como dorme essa porca… —duas garotas falavam enquanto puxavam a cortina do cubículo ao lado.
Sem fazer barulho, voltei para a posição deitada, só por precaução, fingindo que dormia.
Agucei o ouvido.
Elas insultavam a outra paciente, chamando-a de selvagem sem cérebro.
Pelo visto, ela tinha se metido numa briga com uma das amigas delas durante o exame de admissão.
— Isso aqui vai te ensinar uma lição…
Ouvi o barulho de arrastar um móvel e o chacoalhar do que quer que estivessem aprontando.
— Termina logo de amarrar o fio e vamos, anda, porra, se a enfermeira pegar a gente, estamos ferradas.
Da mesma forma que vieram, saíram.
Fechei os olhos e fiquei quieta ao ver as sombras passando em direção à saída.
Não sei o que tinham feito, mas com certeza não era nada bom.
Consegui calçar os tênis, ainda estava com o macacão esportivo todo sujo.
Caminhei devagar, com o corpo ainda meio lento, pronta para ir embora também.
Mas parei depois de alguns passos e olhei para trás.
O salão enorme, cheio de camas de descanso, estava vazio; parecia que só nós duas fomos internadas.
Senti pena da desconhecida.
Não era justo fazer uma maldade dessas com alguém inconsciente.
“O que diabos você tá fazendo, mulher?” Thera resmungou. “Teu nome devia ser Dona Problema.”
“Fica de olho pra ver se alguém vem”, respondi, afastando a cortina com curiosidade.
Sobre a prateleira, bem acima da cabeça da garota, tinham colocado um recipiente metálico tirado sabe-se lá de onde.
De uma alça pendia um fio que descia e se conectava ao pulso inerte da loba ruiva que dormia na cama.
“SANTA MÃE LUA, deixaram ela toda destruída! ... Coitadinha…” Thera exclamou, e sim, ela estava cheia de ataduras, não parecia nem um pouco a vencedora da briga.
“Acho que é uma Beta”, Thera farejou, confusa.
“Seja o que for, não dá pra deixar isso assim.”
Como sempre, acabei me metendo onde não me chamaram.
Subi na mesinha ao lado e, fazendo malabarismo, consegui pegar a panelinha metálica nas mãos.
— Porra, que frio isso… —comentei, olhando lá dentro.
Claro… estava cheia de cubos de gelo derretendo.
“Se isso cai na cara dela junto com a panela inteira…” Thera deixou no ar, mas nós duas sabíamos: reconstrução facial na certa.

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