KADEN
Eu esperava embaixo das escadas do imenso hall.
Atrás de mim, as portas se abriam pro salão onde a sinfonia da orquestra já tocava e as pessoas conversavam sobre assuntos sem importância.
O tilintar das taças se misturava entre falsidades e sorrisos de hipocrisia.
O protocolo que o cargo da realeza exige nunca foi do meu agrado, mas meu pai não parava de me lembrar das minhas obrigações e do fato de que já existia um substituto pro meu posto de herdeiro.
Eu me lembro de horas atrás, quando esperei minha família na entrada VIP da Academia.
Assim que ele desceu do carro, a primeira coisa que fez foi me dizer, de forma direta, que eu acabasse com a minha estupidez de competição entre Serafinas.
Aposto o que for que ele está no salão privado dele, reunido com aquele rato do diretor, pra me colocar ainda mais vigilância.
Eu bebi do meu licor, engolindo a raiva ao lembrar de como ele me disse que, pra foder uma mulher, não precisava dar tanta importância.
Eu me pergunto por que ele só esperou pra me dizer isso depois que a minha querida “mãe” saiu com uma desculpa bem mal disfarçada.
Eu apostava o que fosse que ela foi aplicar a delicadeza dela na Savannah.
Eu olho de novo lá pra cima, pras escadas de mármore… eu tô preocupado com ela.
Eu sei como a minha família age, eu sei todos os mecanismos que eles têm pra pressionar ela e, se não der, eles vão pra cima da matilha dela.
Só mostrando pro meu pai o valor dela como Serafina e provando que ela realmente é a minha companheira destinada é que toda essa maldita pressão vai acabar.
—Irmão, você tá esperando a sua namorada? —de repente, uma voz infantil e um puxão na calça do meu terno me fizeram sorrir.
Eu olho pro pirralho do meu lado, que me observa com olhos verdes brilhantes e o cabelo platinado do nosso pai, penteado pra trás com gel.
—Ela não é minha namorada, é minha acompanhante. O que você tá fazendo aqui sem a sua babá? —eu digo, me abaixando pra ficar na altura dele.
Parece que foi ontem que eu segurei ele nas mãos quando a Rainha o deu à luz.
Apesar das más intenções ao nosso redor, eu amo meu irmãozinho.
—Eu fugi pra te ver… —ele leva as mãos à boca e se inclina pra sussurrar, cúmplice, ele é só um bebê grande, esperto demais pra idade.
—Se comporta, Esteban —eu digo, tentando soar sério, mas em um segundo eu já tô sendo enforcado por aqueles bracinhos gordinhos.
—Irmão, vamos brincar! Eu sinto sua falta! Faz muito tempo que eu não te vejo. Você tá bravo comigo? —os olhinhos dele me encaram, quase chorando, ele baixa a cabeça, perdendo o entusiasmo.
—A Nacha disse que você não me queria porque eu ia tirar o seu lugar do papai —eu franzi a testa, irritado, guardando o nome daquela criada.
—Eu não quero ser Rei, eu só quero ficar com você!
Ele grita com os olhos úmidos, como se realmente entendesse o que significa ser o Rei.
Vai saber desde quando ele guardava isso, talvez achando que eu não voltava pra casa por causa disso.
—Olha pra mim, Esteban, o que a gente disse sobre ficar ouvindo conversa escondido?
—Mas, irmão… —ele fungou mais um pouco.
—Não importa quem seja o Rei ou as bobagens que você ouça, nunca duvide do meu carinho por você —eu acariciei a bochecha dele, vermelha e molhada.
—Eu não tô bravo com você, isso é impossível. Eu só tô treinando na Academia, mas eu vou voltar pra casa nas férias.
Ele soluçava de um jeito dramático, segurando o choro.
O papai repreendia ele toda vez que ele mostrava qualquer sinal de fraqueza.
Ele fazia o mesmo comigo, nem no dia em que minha mãe morreu eu pude chorar como eu queria.
Eu abracei ele forte, apoiado num joelho, sem me importar em amassar um pouco o meu terno.
O corpinho dele grudado em mim desde o dia em que nasceu, e depois nunca mais se desgrudou, como um rabo preso na minha bunda.
Eu nunca vou deixar essa competição idiota nos afastar.
Se eu não conseguir controlar a minha violência, se o pior acontecer, eu vou apoiar o Esteban, eu não vou lutar contra ele.
Mesmo assim, meu irmão mais novo também vai ter que passar por esse período sombrio com o lycan dele.
—Sua majestade! —eu ouço o grito da babá dele.
A pobre mulher, com alguns quilos a mais, vem correndo e suando por baixo do traje suntuoso.
Eu sinto o Esteban se tensionar.
—Irmão, diz que você me chamou —ele sussurra, e eu separo ele pra olhar no rosto.
O sem-vergonha ainda sorri pra mim, e o drama já passou rápido demais.
—Sua alteza real, perdoe meu descuido, o príncipe Esteban está incomodando o senhor…
—Meu irmão nunca me incomoda —eu digo, me levantando e pegando a mãozinha dele.
—Garanta que cuide bem dele e, principalmente, que ele não escute o que não deve —eu encarei a mulher com os olhos semicerrados e vi ela empalidecer.

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