Branca Oliveira
Espalhei minhas coisas pelo apartamento sem muita ordem. Roupas sobre o sofá, sapatos no chão, documentos separados em cima da mesa. Duas malas já estavam fechadas perto da parede, esperando por mim como um lembrete silencioso de que aquela não era uma mudança comum.
Peguei o celular e disquei o número da Lais.
“Amiga, você pode me fazer um favor?”, perguntei assim que ela atendeu.
“Claro que posso. Inclusive… estou na sua rua agora. Já passo aí.”
“Não, não precisa”, respondi rápido demais. “Eu te explico por telefone mesmo, não se preocupa...”
Mas não deu tempo de continuar, o interfone tocou.
Fechei os olhos por um segundo, suspirei fundo e fui atender. Eu não queria que ela me visse agora, não na situação em que eu me encontrava. Mas ela era a única pessoa que tinha sobrado depois de que minha vida ruiu, seria impossível esconder qualquer coisa dela.
Minutos depois, Lais entrou no apartamento com aquela energia que sempre parecia grande demais para caber em qualquer lugar. Ela parou no meio da sala, olhando em volta, analisando o cenário caótico.
“Ué…”, disse, apontando com o queixo para as malas. “Você vai viajar?”
Sorri de lado e caminhei até ela. Abracei minha amiga com força, como se aquele abraço fosse me manter de pé por mais alguns dias.
“Eu aceitei um emprego novo.”
“Graças a Deus!”, ela disse, retribuindo o abraço. “Amiga, ficar enfurnada naquele hospital ia acabar com você. Que bom que arranjou outra coisa. Mas…”, ela se afastou um pouco e me olhou de cima a baixo, curiosa. “Se tem um emprego novo, por que duas malas? Vai se mudar para lá?”
Puxei Lais pela mão até o sofá e nos sentamos.
“Vou ser babá de uma menininha doente”, expliquei com calma. “Ela acabou de passar por um transplante de coração. Precisa de acompanhamento constante. Só até o corpo dela cicatrizar direito. Eu preciso dormir no meu emprego até que ela fique bem.”
Lais me encarou como se eu tivesse acabado de dizer que ia atravessar o oceano a nado.
“Branca…”, começou devagar. “Eu acho isso uma péssima ideia.”
“Péssima?”
“Péssima”, ela confirmou. “Cuidar de uma criança doente agora? Tudo vai te lembrar o Pedro, amiga. Eu não acho isso saudável. Acho que você devia viajar, cuidar de você. Fazer um retiro, sei lá. Deixar o luto vir, passar, ir embora. Você precisa viver. Precisa se cuidar. Não acho que é um bom plano você cuidar dessa garotinha.”
“Que você cuide do meu apartamento pra mim.” Engoli seco. “Vou te mandar o dinheiro pra qualquer coisa que aparecer. Condomínio, conta, alguém pra limpar de vez em quando… Não quero que ele fique com cara de abandonado.”
“Deixa comigo”, ela respondeu sem hesitar. “Você só precisa se preocupar em ficar bem, do resto eu dou conta.”
"Então vem me ajudar a terminar de arrumar minhas coisas." rapidamente, arrumei a terceira mala que eu achei necessário levar, e coloquei o porta-retrato da minha mãe e do Pedro dentro. Fechamos tudo e coloquei no lugar as outras coisas. Era isso...
Liguei para o motorista que entrou no apartamento e levou minhas três malas e me virei para minha amiga, pegando minha bolsa de suas mãos.
“Então eu vou indo. Antes que meu novo chefe comece a ligar achando que eu fugi no primeiro dia.”
Lais arqueou a sobrancelha.
“Ele é tão ruim assim?”
Olhei para a porta por um segundo, lembrando do sorriso de canto, do controle, das regras, da sensação de estar presa sem algemas.
“Você não faz ideia.”

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