Cássio Ravelli
Eu a vi antes mesmo de alguém avisar que ela tinha chegado.
Da janela do andar superior, observei o carro parar diante da entrada principal. Branca desceu sozinha, e pegou as malas do meu motorista assim que ele as colocou no chão. Não eram grandes. Não tinham cara de mudança definitiva. Eram pequenas demais para alguém que acabara de virar a própria vida do avesso.
Por um instante, pensei que aquilo fosse um erro. Que ela deixaria as malas ali, daria meia-volta e desapareceria. Teria sido mais coerente com o ódio que me lançou horas antes.
Mas não.
Ela atravessou a porta decidida e isso era o que mais me impressionava nela.
Desci as escadas sem pressa e a encontrei no closet ao lado do quarto de Aelyn, organizando as roupas em silêncio, concentrada demais para perceber minha presença. Observei por alguns segundos antes de falar.
"Por um momento, eu realmente achei que você não voltaria."
Ela não se virou de imediato.
"Eu não estou fazendo isso por você", respondeu, seca, continuando o que fazia.
Assenti, mesmo que ela não estivesse olhando.
"Eu sei. E agradeço mesmo assim."
Estendi o contrato em sua direção.
"Aqui está. Leia com calma. Se precisar de qualquer coisa, estarei no escritório."
Ela finalmente me encarou, pegou os papéis e assentiu.
"Obrigada."
Não disse mais nada. Saí antes que a conversa se tornasse algo que eu não estava disposto a enfrentar naquele momento. Aelyn estava segura. Branca estava ali. E eu tinha trabalho acumulado o suficiente para ocupar minha cabeça pelas próximas horas.
Ou era o que eu pensava.
No escritório, encontrei a mesa tomada por processos. Meus estagiários tinham deixado anotações organizadas, resumos objetivos, marcações de prioridade. Alguns casos exigiam apenas despacho. Outros, revisão completa. Havia processos delicados, envolvendo nomes importantes, interesses grandes demais para erros pequenos.
Nada fora do comum.
Analisei um, depois outro. Fiz correções, anotações à margem, destaquei motivações ocultas. Sempre foi assim. Não me interessava apenas o crime, mas o porquê. O que levava alguém até ali.
De tempos em tempos, meu olhar fugia para o monitor de câmeras à minha frente.
Aelyn ria.
Branca estava sentada na cama com ela, mostrando algo no tablet, inclinada demais, próxima demais. Minha filha parecia outra criança. Mais leve. Mais viva. Eu sorri sem perceber, acompanhando aquela cena como se fosse algo… doméstico.
Meu nome estava ali.
"Merda!" soquei a mesa e comecei a ler todo o conteúdo do processo. De onde tinham tirado isso? Aelyn era a terceira da fila, e o coração não foi compatível com os dois primeiros.
Liguei para meu advogado no mesmo instante.
"Bayron, temos um problema." meu advogado riu.
"E quando o senhor Ravelli não tem?" falou calmo do outro lado da linha.
"Dessa vez é sério, porra. Estão me investigando pelo transplante do coração da Aelyn." o ar mudou no mesmo instante.
"E você tem alguma culpa nisso?" pensei por alguns instantes e soltei o ar com raiva.
"Devo ter xingado alguns idiotas, e dito que eu precisava de um coração, mas nada além disso."
"Cássio, você sabe, melhor do que eu, que não é tão simples assim. Ninguém iria abrir uma investigação sobre você se o caso não fosse sério. Pensei nas suas atitudes, em tudo o que fez. Tem certeza de que não tentou comprar nenhum coração?"
Claro que eu tinha pensado nisso, mas fazer... isso não... nunca. Eu não me perdoaria, e nem estaria agindo conforme os meus princípios.
"Eu não fiz nada, Bayron. Eu só agi como qualquer pai normal. Surtei, xinguei e exigi que achassem uma solução."
"É meu amigo, então reze para ser só isso, porque se tiverem qualquer prova contra você. Você não perderá só o cargo..."

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