André
Eu estava no telefone com a delegada, voz baixa, anotando detalhes sobre o mandado renovado, quando a porta do escritório bateu com força.
Não foi um toque educado. Foi uma invasão.
Ergui os olhos.
Emily Morrow.
Entrando como se o lugar ainda fosse dela, salto alto ecoando no piso, sorriso charmoso ensaiado nos lábios, postura de quem sabe que o corpo ainda faz efeito. O decote da blusa branca aberto um botão a mais do que o necessário, saia lápis marcando as curvas.
Desliguei sem nem me despedir.
“Eu não posso te atender agora. Estou ocupado.”
Voltei para o computador, dedos voando no teclado, abrindo o contato do proprietário do imóvel que eu tinha separado mais cedo. Caso precisássemos tirar Branca e Aelyn dali rápido.
Emily fechou a porta atrás de si com um clique deliberado. Atravessou a sala em passos lentos, calculados, e sentou na cadeira diante da minha mesa como se tivesse sido convidada. Cruzou as pernas, o tecido da saia subindo um pouco mais do que o profissional.
“Nossa. Que recepção péssima. Você já foi bem mais caloroso comigo.”
Eu ri sem humor, sem tirar os olhos da tela.
“Saia daqui, Emily.”
Ela inclinou a cabeça, sorriso se alargando.
“Você sempre teve tempo pra mim. Lembra daquela noite no seu carro, depois da audiência? Você não conseguia parar de me tocar.”
Meu maxilar travou.
Continuei digitando.
Ela se inclinou sobre a mesa, o decote se abrindo mais, perfume doce invadindo o ar.
“Eu sei que errei. Fiz coisas que não deveria. Mas eu mudei. Quero consertar. Quero tentar de novo.”
Silêncio.
“Você também se lembra da gente”, ela insistiu, voz mais baixa, quase um ronronar. “Não acha que merecemos uma chance? Eu posso ser tudo o que você quiser. De novo.”
Eu parei.
Ergui os olhos devagar.
E ri.
Uma risada curta, seca, que fez o sorriso dela vacilar.
“Você é louca ou se faz?”
"O que?"
"Isso que você ouviu..."
Me levantei, peguei a pasta que precisava. Dei a volta na mesa.
Ela se levantou rápido e bloqueou meu caminho. Corpo perto demais. Mão no meu peito, dedos abertos.
“Eu estou falando sério, André.”
“Eu também.”
“Me dá uma chance de mostrar que eu mudei.”
Segurei os pulsos dela com firmeza e afastei as mãos do meu peito.
“Cansou da promotoria?” perguntei, frio. “Agora quer virar juíza? Ou só precisa de um contato forte pra subir mais rápido?”
Os olhos dela brilharam. Raiva misturada com algo mais escuro.
Eu acertei.
Ri de novo, baixo.
“Você é tão previsível, Emily. Sempre foi.”
A expressão dela endureceu. O charme rachou.
“Vai embora daqui”, eu disse. “Antes que eu chame o segurança e isso vire um boletim de ocorrência.”
Ela perdeu o controle por um segundo.
“Não até você me ouvir. Eu preciso da sua ajuda. Você me deve isso.”
“Eu não te devo nada.”
Ela tentou me segurar de novo, unhas cravando no meu braço.
Eu desviei com um movimento seco.
Abri a porta de vez.
E dei de cara com Laís.
O tempo parou.
Ela estava parada no corredor, pasta na mão, olhos indo de mim para Emily em frações de segundo.
Emily atrás de mim: cabelo levemente bagunçado da discussão, rosto vermelho, respiração alterada, blusa desalinhada.
Os olhos queimando.
“Vai me explicar, ou posso deduzir que....”
Eu respirei fundo.
“Ela apareceu do nada. Queria ajuda pra carreira. Ou pra ficar comigo. Ou os dois. Eu disse não. Ela insistiu. Ela é do tipo que não aceita um não como resposta..”
Laís cruzou os braços.
“Ela estava descabelada. Vermelha. Respirando pesado. Não parecia que nada tinha acontecido.”
“Porque a gente discutiu. Ela tentou me tocar. Eu afastei.”
Laís deu um passo à frente.
“Você ainda sente alguma coisa por ela?”
“Não.”
“Então por que ela acha que pode entrar aqui e te tocar?”
“Porque ela é arrogante. E burra. E acha que ainda tem poder sobre mim.”
Laís ficou me olhando por longos segundos.
Depois soltou o ar devagar.
“Eu confio em você. Mas não confio nela. E não gosto de ver ela perto de você.”
Eu me aproximei. Toquei o rosto dela.
“Eu também não gosto. E vou deixar a entrada dela proibida a partir de hoje.”
Laís segurou meu pulso. Apertou.
“Se ela voltar, eu mesma tiro ela daqui. E não vai ser bonito.”
Eu sorri apesar de tudo.
“Eu sei. Fique a vontade para usar seu novo sobrenome.”
Ela relaxou só um pouco.
Mas o ciúme ainda estava ali. Latente. Quente.
E eu sabia que aquilo ia dar trabalho.
Muito trabalho.

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