Branca
Eu sabia que Cássio estava exagerando.
Ou pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma enquanto amarrava os sacos de lixo da cozinha, apertando o nó com força para não deixar nada escapar.
Tudo estava sob controle.
Ele tinha reforçado a segurança. O prédio tinha câmeras em todos os cantos. Porteiro 24 horas. Equipe armada no estacionamento.
Eu não estava saindo para a rua. Era só o depósito do próprio prédio, dois andares abaixo.
“Deixa que um dos seguranças leva”, ele insistiu pela terceira vez, parado na porta da cozinha, braços cruzados, olhos fixos em mim como se eu fosse evaporar.
“Cássio… É só lixo, não tem por que eu não levar..."
"Por ser só lixo, deveria deixar alguém levar. Não sei por que deixei você me convencer de que não precisaríamos da Tamara."
Respirei fundo, tentando manter a voz firme, mas sentindo o peito apertar. “Eu não vou colocar mais ninguém em risco. Já basta você e a Aelyn. Eu só preciso de um minuto. Um minuto para me sentir normal.”
Ele passou a mão pelo rosto, irritado, os músculos do braço tensionando sob a camisa.
“Você não precisa provar que é forte toda hora.”
“Eu não estou provando nada”, respondi mais baixo, mas com raiva contida. “Eu só preciso andar um pouco. Respirar sem você ou um segurança no meu calcanhar. Eu estou me sentindo sufocada aqui dentro. Não é como se eu fosse dar uma volta na rua, é só descer até o depósito de lixo, deixar isso lá e voltar.”
Ele me encarou por longos segundos, olhos escuros cheios de frustração.
Bufou.
“Seja rápida. Eu vou cronometrar.”
Eu assenti.
Peguei os dois sacos de lixo, o plástico frio e úmido contra as palmas, e saí.
O elevador parecia mais lento do que o normal. O espelho refletia meu rosto ainda pálido, olhos levemente inchados do choro mais cedo. Eu estava um caco, mais do que o normal. Mais parecido com como quando eu vivia com Jonathan.
"Respira.... está acabando. Logo ele vai sumir de vez." repeti para mim.
As portas abriram.
A garagem estava silenciosa demais. O cheiro de concreto úmido misturado com gasolina velha e óleo pingado no chão invadiu meu nariz. A iluminação branca fluorescente fazia tudo parecer mais frio, mais vazio.
Caminhei até o depósito de lixo no canto do estacionamento, os passos ecoando no asfalto rachado.
Dois seguranças estavam ali.
Uniforme padrão dos homens do Cássio. Crachá pendurado no peito. Postura firme, um deles com rádio na mão, o outro encostado próximo à porta do depósito.
Franzi a testa.
Não reconheci nenhum dos dois.
“Boa tarde, senhora”, disse o mais alto, voz neutra demais, sem sotaque local. “O senhor Cássio pediu reforço aqui embaixo.”
Meu estômago apertou de leve.
Mas aquilo fazia sentido. Ele estava paranoico. Tinha contratado mais gente.
Assenti sem responder, ignorando o suor frio que começava a escorrer pelas costas.
Abri a tampa do contêiner, o metal rangendo, e joguei os sacos lá dentro. O baque ecoou seco.
Quando me virei, o segundo segurança estava perto demais.
Muito perto.
O cheiro dele, suor azedo misturado com cigarro, me acertou antes do toque.
Eu não conseguia mais sentir minhas pernas. Elas dobraram, o peso do corpo caindo contra o homem que me segurava.
Fui levantada como um peso morto. Carregada. Os braços dele apertando minha cintura, machucando as costelas.
O ar mudou quando saímos da iluminação branca, mais escuro, mais úmido.
Uma porta de carro abriu. O cheiro de borracha quente e gasolina velha me acertou como um tapa.
Fui jogada em algo duro. Metal frio contra as costas. Meu ombro bateu na lateral com um baque surdo, dor lancinante subindo pelo braço.
Tentei me mover. Rolar. Qualquer coisa. Meu corpo não respondia.
O mundo estava escuro demais. A tampa do porta-malas fechou com um estrondo oco, ecoando como um caixão sendo lacrado.
O carro começou a se mover. Senti o solavanco nas costelas, o motor vibrando sob minhas costas, cada buraco na estrada me jogando de um lado para o outro.
Tentei manter os olhos abertos. Tentei pensar.
Aelyn. Seu sorriso. Seus bracinhos em volta do meu pescoço. “Tia Branca, eu te amo.”
Cássio. Seus olhos quando me pediu em casamento. “Eu te amo.”
Eu preciso ficar acordada. Preciso lutar. Preciso voltar pra eles.
Mas o cheiro ainda estava na minha garganta, pesado, sufocante. A luz que entrava por uma fresta fina foi diminuindo, borrando.
Meu corpo ficou mole demais.
O último pensamento veio como um sussurro desesperado, cheio de raiva e pânico:
Ele nunca ia me deixar viver em paz. Ele ganhou. De novo.
E então tudo ficou preto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz