Branca
Por um segundo, eu não entendo.
As palavras do André chegam até mim, mas parecem não fazer sentido dentro da minha cabeça, como se alguém tivesse embaralhado tudo antes de entregar. Jonathan… solto. Meu coração dispara de forma imediata, descompassada, e sinto meus dedos ficarem frios enquanto tento processar aquilo.
Não pode ser.
Simplesmente não pode.
Meus olhos se enchem de lágrimas antes mesmo que eu perceba, e eu encaro o André como se ele pudesse desfazer o que acabou de dizer.
"Vocês… têm certeza disso?"
Minha voz sai mais fraca do que eu gostaria, traindo completamente o pânico que começa a crescer dentro de mim.
Ele sustenta meu olhar, sério.
"Tenho. Ele foi solto há pouco."
É como se o chão sumisse sob meus pés.
Jonathan está lá fora.
Livre.
Respirando o mesmo ar que eu.
Sinto o medo subir pela minha garganta, apertando tudo, trazendo de volta sensações que eu achei que nunca mais precisaria enfrentar. Não é só lembrança. É presença. É como se ele estivesse mais perto do que deveria, mesmo sem estar ali.
Ao meu lado, Cássio se levanta abruptamente.
Eu sinto o movimento antes mesmo de olhar para ele. A energia dele muda completamente. O corpo tenso, a respiração pesada, os olhos escurecendo de um jeito que eu já aprendi a reconhecer.
Ele está tentando se controlar.
Mas está por um fio.
Eu queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas as palavras simplesmente não vêm.
Então André continua.
"E a notícia ruim…"
Ele hesita por um segundo, como se soubesse que o que vem agora também não vai ser fácil.
"Eu posso falar?"
Cássio se vira para mim, como se a decisão fosse minha.
E talvez seja.
Eu engulo em seco, ainda tentando me manter firme, e apenas confirmo com a cabeça.
"Pode."
Nós dois olhamos para o André.
E, no instante seguinte, tudo piora.
"Seu avô quer ver você."
Eu sinto o sangue sumir do meu rosto.
Por um momento, eu só consigo encarar ele, tentando entender se ouvi certo. Meu avô. Depois de tanto tempo. Depois de tudo.
"A Ana me mandou mensagem", ele continua. "Ele pediu pra se encontrar com você."
O silêncio que se instala é pesado.
Carregado de coisas que ninguém precisa dizer em voz alta.
"Não."
A resposta do Cássio vem imediata, firme, sem espaço para discussão.
Eu fecho os olhos por um segundo. Parte de mim quer concordar com ele. Quer recusar. Quer fingir que isso não está acontecendo.
"Eu levo ela comigo. Ela pode ficar no meu apartamento."
Eu me viro para ela, sentindo um alívio imediato misturado com gratidão.
"Obrigada."
Ela apenas sorri, como se fosse óbvio que faria isso.
André então se inclina um pouco para frente, entrando de vez na conversa.
"Eu vou estar na reunião." A voz dele é firme, protetora. "Vocês não vão lidar com isso sozinhos."
Eu assinto.
Cássio também.
E, aos poucos, tudo começa a se organizar.
Quem vai estar presente.
Onde vai acontecer.
Como vamos lidar com isso.
Mas, no fundo… nada realmente está sob controle.
Porque, pela primeira vez desde que achei que minha vida estava começando a se reconstruir…
Jonathan está solto.
E a minha família voltou a bater na porta.
E eu sei.
Eu simplesmente sei.
Que isso não vai terminar bem.

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