Branca Oliveira
Assim que o juiz Ravelli virou o corredor e desapareceu, o silêncio não durou nem três segundos.
“Babás não duram muito por aqui.”
A voz da Glória veio baixa, mas afiada o suficiente para me atingir. Eu parei no meio do corredor, respirei fundo e me virei devagar. Ela estava parada perto da porta, braços cruzados, expressão dura, como quem já tinha visto muitas mulheres passarem por aquele lugar e nenhuma ficar.
“E se continuar com essa mania de se achar a sabichona”, ela continuou, “vai rodar ainda mais rápido. E não vejo a hora disso acontecer.”
Bufei, sem paciência para jogos.
“Se a senhora não ligar para a nutricionista, eu ligo”, respondi, firme. “Se essa menina tiver qualquer problema por sobrecarga no organismo, não venham me dizer depois que eu não avisei.”
Ela estreitou os olhos, claramente ofendida.
“Eu sigo ordens”, rebateu. “Não opiniões.”
“Então siga essa”, falei, já virando de costas. “Eu não estou aqui para disputar território. Estou aqui para cuidar da Aelyn. Ligue para a nutricionista, ou eu ligo.”
Deixei Glória falando sozinha e voltei para o quarto.
Aelyn estava sentada na cama, brincando com um bonequinho, mas levantou os olhos assim que me viu.
“O papai está bravo com você?”, perguntou, com aquela carinha que apertava o peito.
Sorri e me aproximei, sentando ao lado dela.
“Não, meu amor”, falei com suavidade. “Ele só quer o melhor pra você. Assim como eu. Estamos aprendendo a resolver as coisas.”
Ela pareceu pensar por alguns segundos, depois assentiu.
“Então tá.” Fez uma pausa e completou, séria: “Se eu sentir qualquer coisa estranha, eu te falo.”
“Combinado”, respondi. “Qualquer coisa mesmo. Se doer a ponta do cabelo, eu quero saber.” ela riu.
"Tia Branca, não tem como doer a ponta do cabelo. Por isso a gente corta." ela me mostrou a pontinha do cabelo dela e eu os acariciei.
"Mas vai que dói. Ai você me fala." ela concordou ainda rindo.
Ajudei a trocá-la, ajeitei o cabelo e deixei tudo pronto para a visita da enfermeira.
Quando ela chegou, foi atenciosa, profissional. Examinou o corte com cuidado, trocou os curativos, explicou novamente como eu deveria higienizar a área e reforçou que a coceira era absolutamente normal naquele estágio de cicatrização.
“É sinal de que o corpo está se adaptando”, disse ela. “Desde que não haja vermelhidão excessiva ou febre, está tudo dentro do esperado.”
Perguntei sobre a alimentação.
Ela balançou a cabeça.
“Isso precisa ser avaliado pelo médico ou pela nutricionista. Eu não posso orientar nessa parte. Mas o senhor Ravelli tem o contato dos dois, peça a ele os números e tire as dúvidas.”
Agradeci, acompanhando-a até a porta.
Voltei meu olhar para Aelyn. Pequenas gotinhas de suor ainda brilhavam na testa dela.
“Você está com calor?”, perguntei.
Agradeci, mas algo dentro de mim se revirou. Não parecia verdade.
Voltei para o quarto e observei Aelyn dormindo.
"Meu Deus, o que é que ela tem?"
Aelyn acordou perto da hora do almoço, e parecia bem melhor, até que tudo desmoronou. Ela empalideceu, levou a mão ao peito e começou a chorar.
“Tá apertado, tia…”
E então vomitou.
Meu coração disparou.
Apoiei a cabeça dela, mantive a calma, limpei tudo com cuidado, dei pequenos goles de água, falando baixo, repetindo que estava tudo bem. Que ia passar.
Ela chorava mais de susto do que de dor.
“Vai ficar tudo bem”, repeti, até sentir o corpinho relaxar. "Se acalma, vai ficar tudo bem." Quando finalmente se acalmou, eu já tinha certeza, algo na alimentação estava errada.
Esperei Glória sair e fui direto para a cozinha.
Abri a geladeira, peguei os ingredientes que tinha separado mentalmente horas antes. Preparei algo leve, simples, pensado para não sobrecarregar o organismo. Algo que eu tinha certeza de que o corpo dela aceitaria melhor.
Estava quase terminando quando ouvi passos firmes atrás de mim.
“O que você pensa que está fazendo?”

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