Entrar Via

Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 19

Branca Oliveira

Me virei ainda com a colher na mão.

Cássio estava parado atrás de mim.

O olhar dele não era só irritado. Era assassino. Daqueles que não pedem explicação, só acusam.

“Que porra você acha que está fazendo?”

Antes que eu pudesse responder, ele avançou, arrancou a panela do fogão e jogou tudo dentro da pia. A sopa espirrou, escorreu pelo inox, respingou no chão. O cheiro quente se espalhou pelo ambiente junto com a minha indignação.

Eu congelei por um segundo.

Depois explodi.

“Você enlouqueceu?” apontei para a pia. “Sua filha está morrendo de fome. Eu preparei para que ela conseguisse segurar alguma coisa no estômago. E não vai ser aquilo ali que vai parar!” apontei para a comida que a Glória tinha deixado.

Ele se virou para mim, o maxilar travado.

“Aquilo ali é o que a nutricionista passou.”

“Não é mais!” gritei. “Está pesado demais para o estômago dela. Está sobrecarregando o organismo. Se você ou a sua maldita empregada tivessem ligado para a nutricionista como eu pedi, saberiam exatamente do que eu estou falando!”

“Você está ultrapassando todos os limites!”

“Não!” bati a colher na bancada. “Eu estou fazendo o que você me pagou para fazer. Estou cuidando dela. Cuidando como se ela fosse minha!”

Ele riu, sem humor.

“Você quer bancar a especialista agora?”

Respirei fundo, sentindo as mãos tremerem.

"Eu só estou tentando manter a Aelyn confortável nesse período de adaptação."

“Você quer provas então?” ele falou sério. “Vou ligar para a nutricionais e você vai ver como está errada." ele tirou o celular do bolso e discou colocando no viva-voz.

“Boa noite”, disse, seco. “Aqui é Cássio Ravelli.”

“Boa noite, senhor Ravelli”, a voz veio calma. “Em que posso ajudá-lo. A Aelyn está bem?”

“Está”, ele respondeu.

“Não está”, falei no mesmo instante.

Houve um silêncio breve do outro lado da linha.

“Como assim?”, a nutricionista perguntou, confusa.

Expliquei. Contei sobre o suor, o enjoo, o vômito, o aperto no peito. Disse que preparei uma sopa mais leve, adequada para o momento metabólico dela, sem entrar no detalhe de que ele tinha jogado tudo fora.

Um riso curto. Cruel.

“Uma mãe que perde o filho não pode ser considerada uma boa mãe.”

Foi como levar um soco no peito. As palavras dele entraram em meus ouvidos e pareceram dominar todo meu corpo. Dei um passo para trás, depois outro, atordoada pelo que ele tinha dito e então me virei.

Fui até a geladeira e peguei os ingredientes para começar tudo de novo. Minhas mãos tremiam, mas eu me forcei a continuar. Eu não daria a ele esse gostinho de me ver chorar. Não de novo.

Atrás de mim, a voz dele veio diferente.

“Branca… me desculpa.” O tom estava mais brando. “Eu estou nervoso. Eu não quis dizer isso. Eu sei que você está cuidando bem da minha filha. Eu vejo isso.”

Não respondi, mas não por que não ouvi. Não respondi por que sabia que se eu abrisse a boca eu ia acabar chorando.

Continuei mexendo a panela, mais rápido agora. Mais focada. Engolindo cada palavra odiosa que ele tinha jogado em mim.

Ele se aproximou e o cortei. Eu não precisava mais da presença dele.

“Vai ver sua filha”, falei sem olhar para ele. “E me deixa em paz.”

Ele hesitou. "Me desculpa de verdade, Branca. Eu não quis dizer aquilo." e saiu.

Fiquei sozinha na cozinha, refazendo a sopa, com as lágrimas queimando atrás dos olhos e a certeza de uma coisa só: Eu não ia deixar ninguém machucar aquela menina. Nem que, para isso, eu tivesse que aguentar tudo calada.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz